Um garotinho de cabelos lisos e longos acorda ao lado de sua mãe no dia em que completa 5 anos e, como faz todos os dias, cumprimenta cada móvel e objeto que compõem seu Quarto: "Bom dia, cama. Bom dia, pia. Bom dia, armário. Bom dia, claraboia..." Depois de escovar os dentes e de tomar o café da manhã, sua mãe lhe diz que eles farão um bolo de aniversário, para comemorar a data especial. As horas se passam, e nem o menino ou sua mãe fazem menção de deixar o Quarto, um lugar apertado, cuja única fonte de luz natural vem de uma claraboia no teto. É ali que eles brincam, fazem exercícios, assistem TV. É ali que eles dormem. E é ali que, tarde da noite, o garotinho pega no sono dentro do armário, e um homem entra no Quarto.
O Quarto é grafado assim, com letra maiúscula, porque aquele é o único lugar que Jack, o menininho, conhece na vida. Para Jack, sua mãe é simplesmente Mãe, assim mesmo, sem nome próprio, apenas a função afetiva que ela exerce sobre a criança. Os dois estão sozinhos ali e o Quarto é o mundo deles. Assim se passa a primeira hora de O Quarto de Jack (Room, Irlanda/Canadá, 2015), o filme mais belo e emocionante entre todos os indicados ao Oscar 2016. A dupla de protagonistas, Brie Larson (Mãe) e Jacob Tremblay (Jack), brilha em todos os sentidos. Ambos têm atuações fora do comum, simplesmente extraordinárias, que não deixam nenhum espectador incólume.
Ao viver uma jovem refém de um homem por sete anos, Brie Larson ingressa com propriedade no rol das atrizes mais importantes da história do cinema. Sua entrega ao papel é marcante, equilibrando doçura - direcionada ao filho - e angústia por ter tido sua vida roubada do resto do mundo. Se Larson não levar o Oscar de Melhor Atriz, tem algo extremamente errado com a Academia.
Mas é Jacob Tremblay quem realmente rouba a cena. E nem mesmo foi contemplado com uma indicação! O ator de 9 anos consegue a façanha de criar a ilusão de que o Quarto é maior do que realmente é. Com muita leveza e naturalidade, em nenhum momento tem-se a sensação de que suas falas são decoradas e que suas lágrimas e arroubos de desespero não são reais. A câmera incessantemente posicionada de modo a sempre mostrar as expressões faciais e as reações do menino, que também é o narrador do filme, colabora para criar um ambiente onírico - e sinistro -, crédito do diretor, Lenny Abrahamson.
Como filme, O Quarto de Jack é uma história de amor entre mãe e filho contada sem afirmar o óbvio e com um roteiro incrivelmente bem construído sobre a fonte original, um romance escrito por Emma Donoghue, que também é responsável pelo roteiro.
O Quarto de Jack é, sem dúvida, o filme indicado ao Oscar 2016 que mais tem a capacidade de tocar e aquecer o coração do público. E cumpre sua missão, encerrando-a com honras.

O Quarto de Jack (2015) on IMDb
Quem conhece os filmes de Judd Apatow (Ligeiramente Grávidos, Bem-Vindo aos 40) sabe que o cineasta e roteirista não é um artista de respostas fáceis e finais previsíveis. Sabe também que seus filmes sempre trazem romantismo sem deixar de considerar seus personagens como simples seres humanos, cheios de falhas e camadas de personalidade incrivelmente complexas. Quando Apatow se uniu à Netflix para criar uma série - com Paul Rust e Lesley Arfin -, uma comédia romântica moderna, esperava-se que todas aquelas nuances e características presentes em seu trabalho no cinema pudessem ser ainda mais ampliadas na realidade sem censura do serviço de streaming mais famoso do mundo. A espera valeu a pena.
Love é divertida, engraçada, agridoce, sensível, tensa e repleta de subtextos e detalhes que podem passar despercebidos na primeira vez que se vê. É uma série sem amarras, que discute as relações humanas da maneira mais realista possível, cujos personagens são gente como a gente, nem tão feios nem tão bonitos, que riem, choram, têm toneladas de insegurança e carência e ainda estão aprendendo a arte de serem adultos, muitas vezes da pior possível.
Gus (Paul Rust) é um professor que trabalha como tutor do elenco juvenil de uma série teen, e vê seu namoro terminar - ou melhor, só percebe quando o relacionamento já acabou faz tempo. Mickey (Gillian Jacobs) é produtora em uma rádio que vive tocando relacionamentos estranhos, tóxicos e improdutivos que só servem para amplificar seus muitos vícios: drogas, álcool e sexo. O inesperado encontro entre Gus e Mickey só acontece ao final do primeiro episódio, que com muita competência apresenta o contexto das vidas de cada protagonista até finalmente jogar um de frente para o outro. Sendo uma temporada de 10 episódios, há tempo o suficiente para o desenvolvimento de cada camada de seus protagonistas, além de mostrar também coadjuvantes que poderiam até roubar a cena, não fosse o brilhantismo e a paixão com que os dois atores principais se entregam aos seus papéis.
Alguns dos altos e baixos de um relacionamento amoroso estão nesta primeira temporada, e quando tudo parece se encaminhar para o pior, a série consegue surpreender e deixar um gancho e tanto para a próxima temporada, que já está assegurada pela Netflix.
Love é uma experiência que deu certo. Há intensidade e verdade em cada cena, cada diálogo, cada olhar e até no modo de andar de todos os que estão em cena. O cenário em que tudo acontece, Los Angeles, é retratado como o ponto de encontro de pessoas solitárias, que necessitam fazer amigos para levar suas vidas e seus sonhos adiante, sempre tendo esperança de que tudo vai melhorar, ainda que suas vidas amorosas não sejam dignas de um filme.
A metalinguagem, aliás, é um dos pontos fortes do roteiro inventivo que está, na maioria dos episódios, nas mãos de Apatow e Rust. O ambiente de trabalho de Gus é mostrado sem nenhum glamour; estamos falando do set de filmagem de um seriado aparentemente famoso, mas tudo é visto em cena sem que o elenco e a equipe de produtores e roteiristas da série sejam retratados como gênios brilhantes, ou simplesmente tremendos cretinos desalmados e insensíveis: são pessoas, como cada um de nós.
A sinergia entre elenco e produção de Love é tão marcante que torna a série viciante: eu e minha esposa praticamente não fizemos mais nada até terminar os 10 episódios. As coisas que a Netflix faz com a gente! Mas quem disse que nós não gostamos?
Retratar o mítico fundador da Apple no cinema não tem sido muito compensador. Piratas do Vale do Silício (1999) e Jobs (2013) foram fracassos monumentais e tampouco funcionavam como obras cinematográficas. Mas quando surgiram as primeiras imagens e trailers de Steve Jobs (EUA, 2015), o terceiro filme a ter como inspiração a vida de um dos grandes gênios da tecnologia e da inovação do nosso tempo, quase todo mundo acreditou na possibilidade de que finalmente teríamos uma produção digna da complexidade e do nome Jobs.
O filme é dirigido por Danny Boyle (Quem Quer Ser um Milionário, Trainspotting) e escrito por Aaron Sorkin (roteirista de A Rede Social e criador da série The Newsroom), e somente com estes nomes por trás das câmeras as pessoas começaram a prestar mais atenção.
As expectativas dos estúdios envolvidos (Sony e Universal) eram altas, mas mesmo com um ótimo filme nas mãos, tendo recebido excelentes críticas, Steve Jobs fracassou nas bilheterias. Com um orçamento de 30 milhões de dólares, arrecadou apenas 17 milhões nos EUA. Como justificativa para os dados negativos, podemos dizer que a estrutura do filme não é lá muito atraente para o público médio, que paga ingresso nos cinemas todas as semanas para se desligar do mundo e obter algum entretenimento.
Mas que estrutura é essa, afinal de contas? Simples, Steve Jobs não conta a história da vida do fundador da Apple. Não é uma cinebiografia típica, do tipo que começa com o protagonista menino ainda, demonstrando suas aptidões para a inovação e termina com uma cena bem emotiva de sua morte. O roteiro de Aaron Sorkin é dividido em 3 atos, cada um deles centrado em momentos em que Jobs apresentou três de suas criações: o Macintosh, o NeXT Cube e o iMac.
Nenhuma cena exibe qualquer uma das apresentações em si, mas sim as horas que antecederam cada um dos eventos, com Jobs (Michael Fassbender) se preparando e, em meio a toda a adrenalina, resolvendo sua vida com os personagens que mais estiveram próximos a ele: Steve Wozniak (Seth Rogen), co-fundador da Apple; Lisa Brennan, sua filha, vivida por 3 atrizes diferentes, conforme acontece a passagem de tempo; John Sculley (Jeff Daniels), o CEO da Apple que ficou famoso por demitir o próprio Jobs da empresa por ele criada; Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg), o engenheiro-chefe da Apple; e Joanna Hoffman (Kate Winslet), sua diretora de marketing, que é mostrada como o braço direito do chefe-gênio.
Sem nunca endeusar um personagem tão odiado quanto idolatrado, o filme de Danny Boyle mostra um Steve Jobs genial, mas com problemas sérios para se relacionar com quem quer que seja, de sua assistente a sua filha, passando por Wozniak, que foi fundamental na construção do império chamado Apple. Como o estudo de personagem que é, Steve Jobs triunfa. A tentativa de Aaron Sorkin de compreender alguém tão diferente e anormal acaba sendo bem-sucedida, ao menos no estilo do roteirista, conhecido pela verborragia em todos os seus filmes e séries. Cada diálogo parece ter sido esculpido e lapidado como uma pequena obra de arte, uma peça de um quebra-cabeça que nunca é completado, nem mesmo quando sobem os créditos finais.
Michael Fassbender no papel principal acabou sendo uma escolha acertada. Sendo a última opção na lista de atores desejados - Christian Bale faria o papel, quando o filme estava para ser dirigido por David Fincher - o ator alemão nem parece sentir a responsabilidade colocada sobre seus ombros. Seu Steve Jobs exala inspiração e firmeza de opinião, ao mesmo tempo em que parece angustiado por não conseguir ter uma vida particular sadia e um relacionamento verdadeiro com sua filha.
O restante do elenco consegue se destacar quase tanto quanto Fassbender: Kate Winslet faz o contraponto perfeito a Jobs, servindo como uma espécie de pêndulo moral para o chefe e amigo. Sua Joanna Hoffman é um dos melhores papéis de uma carreira brilhante. Seth Rogen, mesmo com pouco tempo em cena, prova que é bom ator dramático; a cena da discussão entre Wozniak e Jobs momentos antes da apresentação do iMac, embora nunca tenha acontecido de verdade, é de uma precisão e uma naturalidade assustadoras. Michael Stuhlbarg faz o perfeito cara legal, que assume a função de pai para Chrisann na ausência de Jobs. Em meio a um elenco tão afiado, somente Jeff Daniels é que parece reprisar seu papel em The Newsroom; nada muito anormal, considerando que tanto a série quanto o filme têm o mesmo roteirista.
Filmando quase sempre em ambientes fechados, o diretor Danny Boyle parece encontrar a redenção para seu protagonista na última cena, que acontece ao ar livre, no teto de um prédio, com um diálogo tocante entre Jobs e Chrisann, sua filha renegada por vários anos.
Steve Jobs não falha com seu público. É corajoso ao mostrar durante quase todo o filme os fracassos experimentados por seu protagonista até a volta por cima com o lançamento do icônico iMac, aquele computador colorido que era o sonho de consumo de todo mundo. Equilibrando o mestre da inovação e símbolo-mor do Vale do Silício com o homem com graves problemas de relacionamento, Steve Jobs é, finalmente, o filme que Steve Jobs merecia.

Steve Jobs (2015) on IMDb
Não é fácil assistir A 5ª Onda (The 5th Wave, EUA, 2016). Os rombos no roteiro, os acontecimentos inexplicáveis e os diálogos que nunca saem do lugar-comum fazem da experiência de sentar em uma poltrona de cinema e acompanhar essa trama até o fim algo excruciante.
Olha que o começo do filme até dá alguma esperança: Cassie (Chloë Grace Moretz) aparece armada, apreensiva, dentro de um mercadinho abandonado, à procura de mantimentos, no melhor estilo The Walking Dead. (Em cenas desse tipo, é estranho como as pessoas encontram garrafas d'água e comida dando mole; sempre há uma ou duas garrafas ou latas de atum que alguém aparentemente deixou para trás.) Por meio desse cenário desolador, já sabemos que estamos em um mundo pós-apocalíptico, no qual a lei é cada um por si. Dentro do mercado, escondido em um depósito, há um homem, que logo é confrontado por Cassie, e acaba sendo morto por ela. O mundo realmente mudou. Em seguida, vemos em flashback que as coisas estão feias por causa de uma invasão alienígena que está destruindo a humanidade aos poucos, em eventos catastróficos denominados "ondas". A cada nova onda, a misteriosa raça extraterrestre, conhecida como "os outros" (isso mesmo, igualzinho a Lost e Game of Thrones; já está ficando repetitivo esse negócio), vai aniquilando mais e mais pessoas, até não sobrar mais ninguém. Na 4ª onda ficamos sabendo que os ETs do mal estão assumindo a identidade das pessoas, e se infiltrando em nosso meio, o que faz com que ninguém seja confiável. Na iminência de uma 5ª onda (essa mesma, do título), que parece ser o passo final na extinção final da raça humana, o exército reaparece triunfante e poderá salvar a todos. Ou não.
É claro que, se tratando de uma adaptação de um romance juvenil, haverá um romance em algum lugar por aí. A verdade é que o problema não é bem o romance, mas a maneira como tudo acontece e é retratado no filme. A tal desconfiança contra tudo e contra todos não parece existir, ou é facilmente esquecida. O amor floresce com tamanha facilidade que parece mais um filme televisivo do estilo Lifetime. Cassie, a heroína, alterna fragilidade e autoconfiança sem a menor cerimônia: ora ela é a garotinha do papai, ora ela combate de armas na mão, empunhando fuzis como uma atiradora profissional. O par romântico dela, Evan Walker (Alex Roe), parece um príncipe dinamarquês saído de contos de fadas, e suas declarações de amor são puro besteirol, isso considerando quem ele é de verdade. As justificativas dos personagens não fazem sentido. Todas as reviravoltas da trama são telegrafadas já no primeiro ato, e por isso o final não chega nunca.
Para piorar tudo, há ainda um final em aberto, com o vilão, interpretado por um Liev Schreiber que parece saído direto de Sob o Domínio do Mal, saindo ileso, na esperança de haver uma sequência. A dizer pelos números de bilheteria, A 5ª Onda fracassou e não renderá continuações - ainda bem.
Em meio a tantos filmes que tentam surfar na onda da moda das adaptações de literatura estilo "jovens-adultos", como Crepúsculo e Jogos Vorazes, este A 5ª Onda termina sendo mais semelhante ao primeiro, mesmo querendo se parecer com o universo distópico do último. Missão fracassada.
Tudo o que se podia falar sobre a excelência - criativa e técnica - da Pixar já foi dito. O estúdio de animação é um oásis imaginativo: em meio a um mundo sem graça de refilmagens, reboots e adaptações, a Pixar segue desenvolvendo novas ideias e apresentando novos personagens e histórias para o público. E 2015 foi um ano marcante para o estúdio: depois de lançar a obra-prima Divertida Mente, ainda houve tempo para a chegada de O Bom Dinossauro, que traz várias das características tão conhecidas por nós, e consegue emocionar, mesmo não contando uma história complexa.
Se Divertida Mente parecia ser mais direcionado aos adultos e bem incompreensível para o público infantil, O Bom Dinossauro é um presente para os pequenos; o filme é totalmente acessível para eles, que podem não só apreciar todo o colorido vibrante dos cenários e personagens, como também entender toda a trama e, com as últimas cenas, derramar uma ou outra lágrima. Mas que ninguém pense que só as crianças vão desfrutar do longa; adultos se emocionam tanto quanto os pequenos (ou até mais).
O filme de Peter Sohn se passa em um planeta Terra onde os dinossauros não foram extintos por
nenhum meteoro, e acabaram desenvolvendo habilidades comuns à espécie humana, como a agricultura. É neste mundo que vive o dinossauro pré-adolescente Arlo. Junto com sua família - pai, mãe e dois irmãos - ele mora em uma fazenda e precisa terminar a colheita antes que chegue o inverno. Arlo é um dinossauro medroso, que vê seus irmãos conquistarem elogios dos pais por seus feitos, enquanto ele tem medo até de um bando de galinhas. Quando ele falha em cumprir uma tarefa delegada por seu pai, vê as consequências de seu medo gerarem outras consequências, muito mais trágicas. Sem entregar muita coisa da história, basta saber que Arlo acaba separado de sua família e se junta a um menino humano que ele chama de Spot. Aqui está uma inversão interessante no filme: Spot, o menino, tem o papel de bicho de estimação, enquanto Arlo é a cabeça pensante.
Longe da família, Arlo precisa retornar para casa e provar a todos que tem coragem e consegue realizar as tarefas mais difíceis e desafiadoras. 
O Bom Dinossauro tem cenários de pura beleza, uma trilha sonora belíssima e uma história que, embora simples, consegue envolver o espectador e criar empatia com os personagens principais. Quanto aos coadjuvantes, embora sejam promissores, não possuem tempo em cena o suficiente para desenvolver um relacionamento com quem vê o filme. Afora este detalhe, o filme da Pixar é uma boa pedida para agradar pais e filhos, mesmo que não tenha a complexidade sofisticada e encantadora de Divertida Mente.

É sempre assim quando Sylvester Stallone anuncia um novo capítulo da saga de Rocky Balboa: todo mundo torce o nariz, até ver o que foi produzido e derramar elogios. Foi assim com Rocky Balboa, de 2006, foi assim com Creed: Nascido Para Lutar (Creed, EUA, 2015).
Creed, entretanto, não é tanto uma sequência da série Rocky, quanto é um reboot, voltado para novas gerações terem contato com a franquia de boxe que marcou a história do cinema. Está certo que o personagem principal da série está de volta, com todo o peso do passado de lutas, vitórias e um bocado de derrotas, mas desta vez ele é coadjuvante, um trampolim para o brilho do protagonista, que neste caso é Adonis Johnson (Michael B. Jordan). Adonis é filho - fruto de um relacionamento extraconjugal - do grande campeão mundial de boxe Apollo Creed, que lutou duas vezes contra Rocky Balboa (além de um confronto que ocorreu fora dos olhos do público). Um jovem impetuoso e portador de uma raiva contra o mundo, Adonis vive a infância em abrigos para menores até ser adotado pela viúva de Creed. Já adulto, tem o intenso desejo de se tornar um pugilista profissional e se muda para a Filadélfia na intenção de ser treinado por Rocky Balboa. Embora no começo ele hesite em treinar o rapaz, Rocky aceita o desafio, como um tributo ao pai campeão. O que o "Garanhão Italiano" não sabe é que haverá uma outra luta, esta particular, que talvez ele não consiga vencer.
Dirigido por Ryan Coogler (Fruitvale Station: A Última Parada), o filme traz um fôlego renovado para uma franquia adorada por milhares de pessoas, ao apresentar a uma nova audiência um personagem icônico do cinema. É notável observar que Coogler, negro, apresenta um novo olhar não apenas sobre Rocky, mas também sobre a Filadélfia, a começar por seu herói, Adonis, cuja personalidade explosiva contrasta com o jeitão calmo de seu treinador. A ambientação da história, focada na cultura urbana negra da cidade que foi a primeira capital dos Estados Unidos, é recheada de jovens da periferia em suas motos modificadas e muros grafitados, coisa que não se via nos outros filmes da série.
Igualmente marcante é a atuação do elenco: Stallone está simplesmente soberbo. Muito à vontade no papel que o tornou um astro e no personagem que criou, o ator símbolo de uma década mostra a cada cena o semblante de quem tem uma história de profundo amor e cheia de arrependimentos. Sua vitória no Globo de Ouro pode ter sido o começo de uma jornada que termine no palco do Oscar.
Michael B. Jordan assume o peso de ser protagonista da franquia sem jamais parecer ter qualquer pressão sobre os seus ombros, e de fato não há, já que Creed foi ganhando espaço e audiência devagar, como uma produção despretensiosa, embora feita com coração. Há ainda a presença de Tessa Thompson, como Bianca, uma cantora e musicista talentosa que está destinada a ficar completamente surda; o relacionamento entre Bianca e Adonis é de uma sinceridade e transparência que não devem em nada aos grandes casais do cinema.
Além de tudo isso, há as cenas de boxe, quando a história e os conflitos internos dos personagens ganham forma e corpo dentro do ringue. Como já virou tradição nos filmes do gênero, as lutas são filmadas com as câmeras dentro e fora do ringue, contando com a narração empolgada e surpresa de profissionais da TV. É nessas cenas que Creed realmente ganha força: não há mais roteiro, não há mais nada, somente dois homens lutando. E é um espetáculo duro de se ver, regado por sangue que espirra no público, enquanto dois homens se esmurram. Não é à toa que o boxe atrai tanto a atenção de cineastas.
Por tudo isso, Creed: Nascido Para Lutar é um desses filmes que empolgam o público e criam laços permanentes com o cinema. Imperdível.

Creed: Nascido para Lutar (2015) on IMDb

Finalmente foram divulgados os indicados ao Oscar 2016, em sua 88ª edição! A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas revelou os candidatos ao maior prêmio do cinema mundial, e O Regresso arrebatou 12 nomeações, seguido de Mad Max: A Estrada da Fúria, com 10 indicações. O Brasil está representado pela inédita indicação ao prêmio de Melhor Animação, conquistada por O Menino e o Mundo, de Alê Abreu.

Confira os indicados:

Melhor Filme
Melhor Diretor
  • Alejandro G. Iñárritu - O Regresso
  • Tom McCarthy - Spotlight - Segredos Revelados
  • Adam McKay - A Grande Aposta 
  • George Miller - Mad Max: Estrada da Fúria 
  • Lenny Abrahamson - O Quarto de Jack
Melhor Atriz
  • Cate Blanchett - Carol
  • Brie Larson - O Quarto de Jack
  • Saoirse Ronan - Brooklyn
  • Charlotte Rampling - 45 Anos
  • Jennifer Lawrence - Joy - o Nome do Sucesso
Melhor Ator
  • Bryan Cranston - Trumbo
  • Leonardo DiCaprio - O Regresso
  • Michael Fassbender - Steve Jobs
  • Eddie Redmayne - A Garota Dinamarquesa
  • Matt Damon - Perdido em Marte
Melhor Ator Coadjuvante
  • Christian Bale - A Grande Aposta
  • Tom Hardy - O Regresso
  • Mark Ruffalo - Spotlight - Segredos Revelados
  • Mark Rylance - Ponte dos Espiões
  • Sylvester Stallone - Creed - Nascido para Lutar
Melhor Atriz Coadjuvante
  • Jennifer Jason Leight - Os 8 Odiados
  • Rooney MaraCarol
  • Rachel McAdamsSpotlight - Segredos Revelados
  • Alicia Vikander - A Garota Dinamarquesa
  • Kate Winslet - Steve Jobs
 Melhor Roteiro Original
  • Matt Charman - Ponte dos Espiões
  • Alex Garland - Ex Machina
  • Peter Docter, Meg LeFauve, Josh Cooley - Divertida Mente
  • Josh Singer, Tom McCarthy - Spotlight - Segredos Revelados
  • Jonathan Herman, Andrea Berloff - Straigh Outta Comptom
 Melhor Roteiro Adaptado
  • Charles Randolph, Adam McKay - A Grande Aposta
  • Nick Hornby - Brooklyn
  • Phyllis Nagy - Carol
  • Drew Goddard - Perdido em Marte
  • Emma Donoghue - O Quarto de Jack
Melhor  Animação
  • Anomalisa
  • Divertida Mente
  • Shaun, o Carneiro
  • O Menino e o Mundo
  • When Marnie Was There
 Melhor Documentário em Curta-Metragem
  • Body Team 12
  • Chau, Beyond The Lines
  • Claude Lanzmann: Spectres Of The Shoah
  • A Girl In The River: The Price Of Forgiveness
  • Last Day Of Freedom
Melhor Documentário em Longa-Metragem
  • Amy
  • Cartel Land
  • O Peso do Silêncio
  • What Happened, Miss Simone?
  • Winter on Fire: Ukraine's Fight fo Freedom
 Melhor Longa Estrangeiro
  • Theeb - Jordânia
  • A War - Dinamarca
  • Mustang - França
  • Saul Fia (Son Of Saul) - Hungria
  • Embrace Of The Serpent - Colombia
Melhor Curta-Metragem
  • Ave Maria
  • Day One
  • Everything Will Be Okay (Alles Wird Gut)
  • Shok
  • Stutterer
Melhor Curta em Animação
  • Bear Story
  • Prologue
  • Os Heróis de Sanjay
  • We Can't Live Without Cosmos
  • World of Tomorrow
Melhor Canção Original
  • "Earned It" - Cinquenta Tons de Cinza
  • "Manta Ray" - Racing Extinction
  • "Simple Song #3" - Youth
  • "Writing's On The Wall" 007 Contra Spectre
  • "Til It Happens To You" - The Hunting Ground
Melhor Fotografia
Melhor Figurino
Melhor Maquiagem e Cabelo
Melhor Mixagem de Som
Melhor Edição de Som
Melhores Efeitos Visuais
Melhor Design de Produção
Melhor Edição
Melhor Trilha Sonora
  • Carter Burwell - Carol
  • Ennio Morricone - Os 8 Odiados
  • Jóhann JóhannssonSicario: Terra de Ninguém
  • Thomas NewmanPonte dos Espiões
  • John WilliamsStar Wars: O Despertar da Força
A mudança é dolorida, mas a dor passa e o que fica é a existência de um novo ser. Esta é uma das mensagens que podemos absorver de Brooklyn (Irlanda, Reino Unido, Canadá, 2015), um drama romântico que traz toda a beleza dos filmes do gênero dos anos 1950 para o século 21. Dirigido por um John Crowley inspirado e estrelado por uma iluminada Saoirse Ronan, Brooklyn é um filme de passagem da adolescência para a vida adulta, que trata o tema com sinceridade e autenticidade, criando uma trama envolvente e brilhantemente filmada. O filme chamou a atenção no Festival de Sundance, de onde saiu ovacionado e com um contrato de distribuição nos EUA de 9 milhões de dólares, um valor inédito.
Saoirse Ronan (Hanna, Desejo e Reparação) é Eilis Lacey, uma jovem irlandesa vivendo em seu país em plena era do pós-guerra, quando não havia muita perspectiva de futuro por lá. Ela tem a oportunidade de migrar para os Estados Unidos, a tão sonhada e efusiva América, onde poderá trabalhar, estudar e estabelecer as fundações para um futuro mais feliz. Morando no Brooklyn, em Nova York, Eilis passa por momentos tristes, nos quais não consegue se desvencilhar de seus vínculos com a irmã e a mãe, ambas na Irlanda; as crises de choro e a dor provocada pela saudade da família e da terra natal são vividas por Eilis em close-ups intensos e uma iluminação que se concentra nos lindos olhos da personagem, fruto da colaboração do diretor com seu fotógrafo, Yves Bélanger.
Superada a crise de saudades, Eilis passa a entender que sua vida está daquele lado do Atlântico eBrooklyn do cinema da década de 1950; não há algo como uma paixão à primeira vista insana e fora de controle, como se esperaria em um filme moderno; o que é retratado é um romance à moda antiga,
Tony (Emory Cohen) e Eilis (Saoirse Ronan) vivem seu amor
com trocas de olhares e palavras sinceras que parecem verdadeiramente saídas dos lábios de apaixonados. Coisa bonita de se ver.
conhece Tony (Emory Cohen), um rapaz italiano que desperta nela o amor. As cenas que revelam aos poucos o surgimento do amor entre os personagens são o que mais aproxima
O romance, entretanto, é abalado quando Eilis se vê confrontada com uma tragédia na Irlanda e precisa retornar ao país-natal. Os questionamentos sobre onde está seu lar e onde mora seu coração levam Eilis a um sério conflito interno, que irá determinar seus próprio futuro.
Brooklyn é um filme bonito, com uma fotografia belíssima e um elenco competente - além de Ronan e Cohen, estão em cena Domhnall Gleeson (Star Wars: O Despertar da Força), Jim Broadbent (Iris) e Julie Walters (a Molly Weasley de Harry Potter). Sério candidato a indicações ao Oscar, o drama deve emplacar em categorias técnicas e artísticas; nada mais merecido para um desses filmes únicos, que remetem a uma época mais iluminada.

Brooklyn (2015) on IMDb
O Regresso (The Revenant, EUA, 2015) conta uma história - real - que é um marco americano: a história de Hugh Glass, um montanhista do início do século 19 que sobrevive ao ataque de um urso pardo - matando o animal - mas ferido gravemente, é abandonado por seus companheiros em meio a um inverno rigoroso nas proximidades do rio Missouri para morrer e, depois de retornar à civilização, busca vingança contra os que o deixaram sozinho.
Se o resumo de um parágrafo faz parecer que O Regresso é um filme raso, essa sensação se desfaz quando mergulhamos na realização sofisticada e cruel do diretor Alejandro G. Iñárritu (Birdman, Babel). Todas as adversidades vividas pelo personagem encarnado por Leonardo DiCaprio são tão bem retratadas em cena que é quase possível sentir a pele sendo dilacerada pelas garras do urso, ou o sabor amargo do sangue do fígado cru de um bisão, que o personagem devora para aplacar sua fome. (O astro realmente comeu o fígado cru de um bisão, mesmo sendo vegetariano.)
Como um cineasta em pleno domínio de seu ofício e com o apoio inestimável do fotógrafo Emmanuel Lubezki, Iñárritu filma seus personagens quase sempre de baixo para cima, a alguns centímetros do queixo deles, o que contribui para que tenhamos a impressão que eles estão prestes a desabar, a qualquer momento sucumbir ao frio e à angústia de estar em meio ao nada, em um ambiente tão hostil e mortal. Utilizando, na maioria das cenas, apenas iluminação natural, Iñárritu e O Regresso a mais próxima possível da realidade. E é, realmente, muito realista saber que toda a equipe de filmagem realmente estava lá, nas locações, seja nos Estados Unidos ou na Argentina (para onde foram aproveitar o inverno do hemisfério sul para terminar as filmagens).
Lubezki fazem da experiência de assistir
É claro que todo esse apuro técnico seria em vão, não fosse a entrega do elenco. DiCaprio, que pode - e merece - finalmente ganhar seu Oscar, tem a atuação mais espetacular da carreira, no papel de um homem que não tem mais nada a perder e nada a fazer além de se vingar dos que lhe tiraram tudo; Tom Hardy, como seu algoz Fitzgerald, fala um inglês incompreensível até para falantes nativos, incorporando com maestria o modo de se expressar típico dos homens daquela região; Will Coulter, como o jovem Jim Bridger, talvez seja uma vírgula em meio a um elenco tão bom, ao fazer quase sempre o mesmo papel, o do garoto que nunca sabe como agir, sempre fazendo cara de bobo; e Domhnall Gleeson, como o Capitão Henry, é o perfeito homem honrado, que busca sempre fazer a coisa certa.
O Regresso impressiona. É notável que ainda tenhamos filmes assim, com tamanha dedicação e desejo de fazer cinema puro, por vezes grotesco e violento, mas que causa impacto duradouro na audiência e na história da Sétima Arte.

O Regresso (2015) on IMDb

Veja o trailer:

Já há alguns anos que não é novidade ver um filme voltado para o público cristão causar algum burburinho no mundo do cinema, atraindo grande público e gerando muita publicidade boca a boca, aquela que não depende de altos investimentos dos produtores para que o filme seja conhecido, mas é gerada simplesmente porque as pessoas gostam tanto da obra que a recomendam fortemente para outras pessoas, o que ajuda a engrossar os números das bilheterias. Muitas vezes, entretanto, as expectativas do público acabam frustradas, como aconteceu com Deus Não Está Morto, que era muito, mas muito ruim. Felizmente, isso não acontece com Quarto de Guerra (War Room, EUA, 2015). O filme de Alex Kendrick (Corajosos, À Prova de Fogo) é um alento em meio a tantas outras produções sem qualidade voltadas para os cristãos, que não podem nem ser classificadas como cinema, tamanha sua ausência de qualquer coisa que lembre o conceito de arte.
Verdade seja dita, Quarto de Guerra não é filme para qualquer um. Quem não é cristão, ou não acredita em coisas como oração e milagres, com certeza não irá apreciar passar duas horas ouvindo diálogos constantes sobre o tema. Por outro lado, é possível que o filme toque o coração até destes, tamanha a entrega do elenco em cena. Há mistérios que só Deus conhece, afinal de contas.
Se a trama apresentada não traz nenhum segredo ou inovação narrativa, cada atriz e ator tem um diferencial que colabora muito para a sensação de veracidade das cenas: todos ali são cristãos e creem em cada palavra dita. Não há um ator famoso no elenco - como Nicolas Cage, em O Apocalipse, ou Mira Sorvino em Você Acredita? - para atrair o público, e mesmo assim Quarto de Guerra atraiu uma multidão: já na segunda semana em cartaz nos Estados Unidos, o filme desbancou Straight Outta Compton: A História do N.W.A do topo das bilheterias, e conseguiu arrecadar mais de 63 milhões de dólares por lá, tendo custado somente 3 milhões de dólares.
O fenômeno se repete no Brasil. Tendo sido lançado em apenas 46 salas em 3 de dezembro, a média de público - proporcionalmente falando - só foi menor que o blockbuster Jogos Vorazes: A Esperança - O Final, que estava quase onipresente nos cinemas brasileiros. Com isso, a distribuidora ampliou o circuito exibidor, e Quarto de Guerra já alcançou mais de 200 mil pessoas, com salas cheias e igrejas inteiras ocupando os cinemas e fazendo de cada sessão um verdadeiro culto.
Minha experiência na sessão em que vi o filme foi única. Em tantos anos que frequento e amo os cinemas, nunca tinha presenciado o público aplaudir um filme quando os créditos finais aparecem. A cada cena, a cada novo acontecimento na vida da família protagonista, as pessoas reagiam como quem assiste a própria vida passar na tela, rindo, chorando, gritando, celebrando. Isso, com certeza, não acontece todos os dias. Minhas reações ao filme também não foram nada comuns. Tudo bem que eu sou um tremendo chorão, mas não me lembro de ter chorado e me emocionado tanto com um filme como o fiz com Quarto de Guerra. Não que isso seja atestado de qualidade, é claro, mas é fato notável que uma obra cinematográfica seja tão facilmente identificável com seu público que cause respostas tão fortes e sensações tão pessoais.
Essa identificação vem de uma história simples mas que parece estar sendo contada numa roda de amigos muito próximos, que compartilham suas lutas e vitórias diárias, bem como suas derrotas e quedas. O filme conta a história da família Jordan: um casal e uma filha que vivem uma grave crise interna, mas que encontram na sábia Miss Clara (Karen Abercrombie) o apoio que precisam para superar todos os problemas e entregarem toda sua confiança a Deus. É através da amizade de Miss Clara com Elizabeth Jordan (Priscilla Shirer) e seus ensinamentos sobre oração que a família reencontra o amor e a unidade que tanto precisavam.
Como eu disse, não há nada de novo em Quarto de Guerra. Mas o humor que permeia todas as duas horas de projeção e a forte identificação com seu público faz com que o filme seja inspirador e tremendamente tocante. Um filme cristão que não mostra cristãos bitolados, ainda que comprometidos com sua fé, é o que faz a diferença, tanto no mercado cinematográfico quanto nas vidas que o assistem.

Se só uma palavra fosse necessária para descrever Star Wars: O Despertar da Força, esta seria ÉPICO. Quando vemos os créditos finais do filme mais esperado e comentado do ano, qualquer temor de que a aventura fosse ruim já ficou para trás há bastante tempo. No meu caso, este temor se dissipou logo nos primeiros minutos, quando ficamos sabendo qual é o centro da trama deste episódio VII: a busca por Luke Skywalker, desaparecido há vários anos.
Logo que a Disney anunciou a compra de todo o espólio de Star Wars - por 4 bilhões de dólares - os fãs ficaram enlouquecidos com a notícia de que uma nova trilogia seria produzida, que esta se passaria anos após o episódio VI e não teria o envolvimento de George Lucas. Se houve temor de que a coisa toda acabasse em um fracasso retumbante, isso se devia ao fato de que foi justamente a trilogia-prelúdio de Lucas - especialmente o episódio I - que quase arruinou com toda a magia e afeto pelos filmes clássicos, desenvolvidos pelos fãs durante anos de paixão absoluta. Aquela trilogia que contava a origem de Darth Vader, felizmente, sequer é mencionada no episódio VII. Méritos de J.J. Abrams (diretor e roteirista), Lawrence Kasdan e Michael Arndt (roteiristas), que tinham plena consciência da importância da trilogia clássica na construção de tamanha devoção em torno da franquia. Sabendo da necessidade de agradar fãs antigos e atrair novos admiradores para a saga, os roteiristas conseguiram dosar pequenos presentes que só quem conhece os episódios anteriores entenderá, com elementos novos, personagens originais e uma história que segue padrões consagrados nas maiores odisseias da cultura universal, que tornam possível para qualquer pessoa compreender e apreciar a qualidade do filme e, definitivamente, se divertir muito.
Os protagonistas são Rey (Daisy Ridley) e Finn (John Boyega), ela uma catadora de sucata, ele um ex-stormtrooper em fuga, que acabam se encontrando em circunstâncias que os levarão ao fogo cruzado entre a Primeira Ordem, representada pela figura maligna de Kylo Ren (Adam Driver) e pelo General Hux (Domhnall Gleeson), e a Resistência, sob o comando da General Leia Organa (Carrie Fisher), que 30 anos depois da Batalha de Endor em O Retorno de Jedi, tem uma história de amor interrompida com Han Solo (Harrison Ford). Em posse de informações importantes que podem mudar o rumo da galáxia, os dois novos heróis irão descobrir que seus destinos podem ser muito maiores do que eles pensavam.

Star Wars trata da jornada do herói, um tema recorrente na cultura de quase todos os povos e sociedades. Não poderia ser diferente nesta retomada da série. E é justamente essa jornada que fascina e transmite honestidade e paixão para o público. Tal paixão pode ser percebida na escolha de Abrams de utilizar efeitos práticos na maior parte das cenas. Quase tudo o que se vê na tela está realmente lá: cenários, robôs, personagens alienígenas, tudo palpável, concreto, verdadeiro. O trabalho com os efeitos sonoros também é notável: quando os sabres de luz tocam a neve, ou quando Chewbacca instala uma bomba em uma instalação inimiga, os sons que se ouve são um toque a mais na construção de um filme que remete às melhores aventuras que o cinema nos proporcionou - um filme que é puro cinema.
E, por falar em Chewbacca, os personagens clássicos são parte importante da trama, no que é quase uma cerimônia de troca de guarda: os antigos passam o bastão aos novos. Talvez por causa disso é que Star Wars: O Despertar da Força seja tão emocionante para os fãs antigos. Talvez, também, seja este o motivo que faz do filme uma ponte que segue unindo gerações de apaixonados pela maior saga que o cinema já nos deu.
Agora, não tem volta. Star Wars volta a assumir seu papel de filme de verão: honesto, divertido, brilhante, aventuresco, engraçado e muito emocionante. Os outros filmes que corram para chegar perto da criação máxima de George Lucas.

Star Wars: O Despertar da Força (2015) on IMDb
Um dos maiores filmes dos anos 1980, Paris, Texas (1984, Alemanha/França/Reino Unido/EUA) é um verdadeiro tesouro cinematográfico. Com esta obra e Asas do Desejo, o cineasta Wim Wenders registrou seu nome entre os grandes diretores de todos os tempos, ao lado de Ingmar Bergman, Federico Fellini, Charles Chaplin e Francis Ford Coppola, entre outros. Com um início intrigante e um final tocante sem jamais ser piegas, Paris, Texas deixa marcas em todos os que sabem apreciar bom cinema.
Quem é aquele homem magro e pálido caminhando em pleno deserto Mojave, nas conhecidas planícies do Texas? Sem memória e sem falar nada, ficamos sabendo que o homem é Travis (Harry Dean Stanton), alguém que já teve família, com esposa e filho, mas agora vaga sozinho e silencioso pelos lugares mais isolados do país. A figura misteriosa e de passado nebuloso acaba sendo encontrado por seu irmão, Walt (Dean Stockwell), que juntamente com a esposa Anne (Aurore Clément) assumiu a tarefa de criar seu filho, Hunter (Hunter Carson). Os dois têm feito isso há 4 anos, desde que ambos os pais do menino simplesmente desapareceram, após circunstâncias só explicadas ao final do filme. Agora, depois de reunido com o filho, Travis precisa reaprender a conviver com sua família e ainda fazer as pazes com seu passado, algo que só acontecerá quando ele reencontrar sua esposa, Jane (a exuberante Nastassja Kinski). A cena em que Travis relata sua jornada recém-lembrada à esposa é um daqueles momentos sublimes do cinema moderno: antológica e carregada de significado. Brilhante.
Paris, Texas é um filme de reencontros e despedidas. Wim Wenders, em perfeita sintonia com o roteiro de Sam Shepard (Bloodline), tem a habilidade de criar uma obra que exala emoções genuínas, sem agredir a tela com atuações exageradas e fora de tom. Aliás, o filme está longe de ser exagerado. O ritmo é lento e tranquilo, o que ajuda na criação do clima de reaproximação com a vida, vivido por Travis. A trilha sonora, composta por Ry Cooder é perfeita neste sentido: climático e provocativo, o som da slide guitar do compositor forma a última peça do quebra-cabeça de um filme perfeito.


Depois de muita ansiedade e expectativa, finalmente a Marvel liberou o 1º trailer de Capitão América: Guerra Civil, filme que vai colocar os principais personagens do Universo Cinematográfico Marvel uns contra os outros. Assista:




Dirigido pelos mesmos caras que fizeram O Soldado Invernal, Joe e Anthony Russo, Guerra Civil tem praticamente o mesmo elenco de Vingadores: A Era de Ultron, menos o Hulk. Além desses, há ainda aparições de Pantera Negra (Chadwick Boseman), Homem-Aranha (Tom Holland), Sharon Carter (Emily Van Camp), Ossos Cruzados (Frank Grillo), Barão Zemo (Daniel Brühl), e do General Thaddeus "Thunderbolt" Ross (William Hurt).

A guerra tem início em 2016.

Se há um único fator que faz da franquia Jogos Vorazes uma parte importante da história do cinema, é o fato de ser uma série inicialmente feita para o público adolescente, mas que soube dialogar com todo tipo de gente, de todas as idades, sem subestimar a capacidade de raciocínio de ninguém. Ainda que Em Chamas, a segunda parte da trama seja superior a todos os outros filmes da saga, A Esperança - O Final (The Hunger Games: Mockinjay - Part 2, EUA, 2015) soube encerrar a história com competência e vigor, mesmo com a derrapada otimista dos últimos minutos.
A saga de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) é dolorosa, sofrida e hesitante. A heroína relutante que protagoniza a série tem menos heroísmo e muito mais sentimento de culpa, o que a coloca como uma personagem diferente de outras heroínas e heróis que o cinema tem visto nos últimos 20 anos, com o surgimento do gênero "super-herói" e o retorno do subgênero oitentista "exército de um homem só". É reconfortante ver uma heroína que, meio por acidente, se torna um ícone para uma multidão de pessoas escravizadas por uma ditadura cruel e sanguinária.
Também é alentador observar uma mulher protagonista que não está nem aí para seus interesses amorosos, a ponto de trocar de parceiro a cada novo fotograma. Não, Katniss não é uma mocinha nos moldes dos antigos filmes de aventura e de ficção científica. Ela é forte e corajosa, sente culpa ao ver gente morrendo por acreditar nela e no que ela representa. É um ser humano de verdade, mesmo com aquelas habilidades com o arco no nível "Arqueiro-Verde-Encontra-Gavião-Arqueiro".
O Final é um filme melhor que sua Parte 1, mas ainda peca em algumas situações bastante prosaicas, aparentemente colocadas na edição final para agradar as fãs adolescentes carentes de romances desde o fim da franquia água-com-açúcar Crepúsculo: estou falando da cena patética em que Gale (Liam Hemsworth) e Peeta (Josh Hutcherson) conversam sobre quem deve ficar com a garota, não sem que Katniss ouça tudo. Mesmo em meio à guerra e à tensão presente em toda parte, os rapazes encontram espaço para debater assuntos do coração? Desnecessário e ridículo.
Ainda bem que o restante do filme mantém o clima de arena presente nos dois primeiros filmes. Embora desta vez não haja um jogo propriamente dito, os obstáculos criados pelos idealizadores para servirem como armadilha para os rebeldes na invasão da Capital são muito convincentes e até assustadores. Os bestantes, seres humanos desfigurados e desprovidos da luz do sol por anos a fio que se assemelham a monstros enlouquecidos, enviados para impedir o avanço do grupo de Katniss, são pavorosos (no bom sentido) e proporcionam as melhores sequências do filme.
Também o clímax, em que Katniss caminha para executar o Presidente Snow, é sombria e determinante para a colocação da personagem no panteão dos grandes heróis do cinema.
O saldo final, então, é positivo. Há perdas terríveis, vitórias em batalha que mais parecem derrotas, mas assim é a guerra. E Jogos Vorazes: A Esperança - O Final é assim: um bom exemplo de como se faz uma verdadeira ficção científica distópica no século 21.
Doloroso. Um soco no estômago. Assim está sendo descrito 'Beasts of No Nation', o primeiro filme original do Netflix, que foi lançado simultaneamente nos cinemas americanos e globalmente no serviço de streaming. 

Se a descrição parece exagerada, isso só se justifica para quem não viu ao filme, um drama de guerra dirigido por Cary Joji Fukunaga (Jane Eyre, True Detective 1ª Temp.), que explora a triste realidade dos meninos-soldados recrutados para servir a grupos paramilitares em diversos países africanos. Tais meninos passam por um processo de lavagem cerebral e se tornam verdadeiros carniceiros, sedentos por sangue e vingança contra qualquer ser vivo que não faça parte de seu grupo. Agu (o estreante Abraham Attah), é um desses meninos. Diante da trágica perda de sua família - seu pai e irmão mais velho foram assassinados e sua mãe e irmãzinha estão desaparecidas - Agu vaga pela selva de um país africano até ser acolhido por um líder paramilitar carismático e misterioso (Idris Elba, em atuação assustadora), que utiliza técnicas de persuasão com cunho esotérico e sobrenatural para convencer seus soldados (muitos deles meninos) de que o inimigo pode ser qualquer um. Com o tempo, Agu passa a ser um assassino impiedoso, obcecado em encontrar a mãe perdida e, talvez, ter de volta sua infância interrompida.

O diretor Cary Fukunaga não poupa a plateia de cenas extremamente chocantes e repletas de uma violência gráfica que talvez não existiria se o filme fosse distribuído por algum grande estúdio de Hollywood. Mas a violência não é gratuita, em nenhum momento. Trata-se de algo necessário para estabelecer o clima de desolação e perda em que vivem os meninos-soldados, bem como seu carismático líder. Quando chega ao fim, 'Beasts of No Nation' não só é capaz de provocar lágrimas amargas, mas também pode suscitar uma reflexão profunda sobre essas crianças que foram impedidas de viverem sua infância como deveriam: com amor, alegria e esperança.

Triste, doloroso, mas necessário.