Doutor Estranho | Crítica

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Faz tempo que eu li a história em quadrinhos que mostrava a origem do Doutor Estranho, a primeiríssima, escrita por Stan Lee e desenhada por Steve Ditko (lembro-me bem, na revista Heróis da TV número 100, formatinho!), que mostrava um cirurgião arrogante mas incrivelmente talentoso que, depois de um acidente que compromete para sempre suas tão valiosas mãos, busca a cura na sabedoria oriental, mas acaba aprendendo mais sobre si mesmo do que imaginava. Doutor Estranho, a criação de Lee e Ditko, já era um personagem intrigante e misterioso, que colocava um pouco mais de magia no Universo Marvel, lá em 1963. Agora, 53 anos depois, quando a própria Marvel lança o primeiro filme do Mago Supremo, milhões de pessoas conhecerão este personagem marcante, um dos mais brilhantes e psicodélicos dos quadrinhos de super-heróis.
Doutor Estranho (Doctor Strange, EUA, 2016), o filme, é um acréscimo bem-vindo ao Universo Cinematográfico Marvel - UCM. Afinal de contas, a magia ainda não havia sido explorada nos filmes da Casa das Ideias - é sempre doloroso lembrar que uma oportunidade foi desperdiçada com aquele Mandarim chinfrim de Homem de Ferro 3. O protagonista do filme de Scott Derrickson (O Exorcismo de Emily Rose) parece um concorrente de Tony Stark, já que Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) tem a mesma arrogância do Homem de Ferro, embora lhe falte a desenvoltura com mulheres. Strange também tem o dinheiro, embora esse logo desapareça quando o cirurgião arruinado gasta tudo o que tem para tentar chegar a uma cura para suas mãos. Mas as comparações param por aí. O que o filme mais visualmente ousado da Marvel reserva para o público é um cenário - ou mistura de cenários, mescla de tudo o que você jamais imaginou ver em uma tela - de complexidade única no UCM.
É claro que, em se tratando de um filme de origem, nós vemos Stephen Strange aprendendo a lidar com seus medos e ambições enquanto desenvolve seu talento nato para a magia, graças aos ensinamentos - nada ortodoxos, como sempre nesses filmes - da Anciã (Tilda Swinton) com o auxílio de Mordo (Chiwetel Ejiofor), ela líder e ele um discípulo de um antigo templo no coração do Nepal. É claro que o público já sabe desde o princípio que Strange será peça-chave na guerra de magia que se desenha desde que Kaecilius (Mads Mikkelsen) se rebela contra a Anciã e rouba as páginas de um livro ancestral, com o objetivo de entregar a terra nas mãos de Dormammu, que nos quadrinhos é o maior inimigo do Doutor Estranho. Mesmo assim, a jornada de Strange até se tornar o Mestre das Artes Místicas não é menos que fantástica.
E é assim porque o diretor Scott Derrickson mostra saber lidar muito bem com cenários grandiosos e efeitos especiais ultra-complexos, repletos de camadas sobre camadas em um espetáculo que fica ainda maior e melhor em 3D. Aliás, esse é o primeiro filme em anos que vejo o 3D funcionar tão bem e compor com tanta eficiência a história projetada na tela.
O elenco mostra-se muito bem composto, especialmente Benedict Cumberbatch e Tilda Swinton, uma dupla de atores que parecem ter sido feitos para contracenarem. Os dois já têm um conhecido ar de estranheza - Tilda mais que Benedict - e todo o contexto de Doutor Estranho contribui ainda mais para essa sensação. Mads Mikkelsen, embora seja um ótimo ator, como já mostrou em Hannibal (a série) e A Caça, não tem um personagem à altura. Seu Kaecilius é um vilão que poderia ser muito mais ameaçador do que realmente é, já que no final ele não passa de um peão de Dormammu, e seu arco é resolvido basicamente em um lance de esperteza do Doutor Estranho (sem spoilers!). Este parece ser ainda o calcanhar de Aquiles da Marvel: o estúdio consegue colocar em cena o melhor de seus heróis, mas sua tão conhecida e adorada galeria de vilões ainda não foi representada com fidelidade nos cinemas. Mas tudo bem, porque sempre haverá o próximo filme da Marvel para nos encher de esperança de que um ótimo e assustador vilão ainda há de aparecer. Por enquanto, nos contentamos com os super-heróis.