Pantera Negra - Todos saúdem o rei!

Em 1966, o mundo passava por mudanças retumbantes em termos de comportamento, visão e cultura. A guerra do Vietnã seguia tirando vidas de jovens americanos e vietcongues impiedosamente, enquanto o governo dos Estados Unidos insistia em mandar tropas para uma guerra já perdida. Nos EUA, aliás, as transformações eram radicais e já estavam varrendo do mapa coisas tão brutais quanto segregação racial. O caminho ainda era longo, mas o Movimento dos Direitos Civis contava com o apoio de grande parte da sociedade. Diante de tal panorama, Stan Lee pensou em criar um super-herói negro, poderoso, e que causaria um impacto maior do que ele previa. Para isso, o grande criador da Marvel convocou Jack Kirby, que acrescentaria sua visão de artista de vanguarda ao personagem, que se chamaria Pantera Negra.
Mais de 50 anos depois, o super-herói finalmente ganha seu primeiro filme. E que filme! Pantera Negra (Black Panther, EUA, 2018) é um marco histórico por si só, ao apresentar um protagonista negro em um blockbuster que almeja arrecadar mais de 160 milhões de dólares em seu fim de semana de estreia. Entregue nas mãos do diretor Ryan Coogler (de Fruitvale Station e Creed), T'Challa recebe as honras que merecia. Além de dirigir, Coogler também é co-autor do roteiro, que apresenta o rei de Wakanda ao Universo Cinematográfico Marvel. O personagem já tinha tido uma participação importante em Capitão América: Guerra Civil, chegando a roubar a cena quando aparecia, mas é aqui que T'Challa mostra toda sua força e importância no universo idealizado por Stan Lee.
A trama tem início uma semana depois dos eventos de Guerra Civil, com T'Challa (Chadwick Boseman) voltando para Wakanda para ser coroado rei do país, após a morte trágica de seu pai. Wakanda, encravada no coração da África, é a nação mais avançada do mundo, apesar de quase ninguém fora do país saber. Durante décadas, o país se manteve escondido sob o disfarce de nação de fazendeiros e pequenos lavradores. O mundo conhece Wakanda como um lugar pobre e carente, uma região tribal, como a maioria dos outros países africanos. A partir de seu ritual cerimonial de coroação, T'Challa precisa aprender a lidar com os desafios que envolvem o trono, criar seu próprio legado e descobrir como fazer para levar adiante os ideais ancestrais de seu povo. Mas tudo isso é ameaçado com a chegada de Erik Killmonger (Michael B. Jordan), um homem misterioso e perigoso que pode colocar a perder todo o legado de Wakanda.
Se Pantera Negra fosse apenas um filme de um super-herói negro, já seria histórico. Mas o filme de Ryan Coogler consegue ser mais do que isso, ao debater questões atuais sobre segregação, isolamento, xenofobia e racismo. Apesar de girar em torno desses temas, entretanto, a Marvel não lançou um panfleto. O filme tem ação, lutas, explosões, combates brutais e está cheio de efeitos especiais.
Este é o grande ponto fraco do filme. As imagens em CGI não têm a fluidez esperada para um blockbuster, o que enfraquece bastante quando a trama pede que haja uma luta entre dois panteras. A ação funciona muito melhor na melhor cena do filme, uma sequência na Coreia do Sul, que começa num cassino e termina em uma perseguição vibrante pelas ruas de Seul.
Contudo, Pantera Negra ganha pontos quando se trata de seus personagens. Nenhum coadjuvante é mero coadjuvante. Todos os personagens estão ali para fazer a trama seguir adiante, e o roteiro consegue dar camadas a eles, de forma a fazer com que o público se identifique e siga com eles, goste deles. É assim com Okoye (Danai Gurira), a general da guarda-real de Wakanda, as Dora Milaje, com Nakia (Lupita Nyong'o), que consegue ser muito mais que mero interesse amoroso do herói, Shuri (Letitia Wright), irmã de T'Challa, que trabalha como o Q dos filmes de James Bond. Há ainda os guerreiros W'Kabi (Daniel Kaluuya) e M'Baku (Winston Duke), com arcos interessantes e bem definidos, além do sacerdote Zuri (Forest Whitaker), cuja participação é essencial para o desenvolvimento de toda a história e do agente da CIA Everett Ross (Martin Freeman), que serve de ligação de Wakanda com o resto do universo Marvel.
O elenco está interessado no filme, trabalha com empenho, parecendo entender a importância de uma produção desse porte chegar aos cinemas mundiais. Neste contexto, é importante falar do vilão. Apesar de ter a companhia de um Garra Sônica (Andy Serkis) divertidíssimo, Killmonger é uma figura trágica, cujas motivações são críveis e envolventes. Seu ódio é consistente e sua sede de vingança chega até a ser compreensível. Mais uma vez, Michael B. Jordan prova o ator que é, com um desempenho assustador e uma intensidade palpável, espantosa.
Pantera Negra consegue ser entretenimento e ao mesmo tempo suscitar discussões importantes e atuais. Parece que a Marvel finalmente amadureceu.

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