O Lar das Crianças Peculiares - Crítica

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Há muito tempo Tim Burton não entregava um filme memorável, digno de sua carreira brilhante. Desde Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, de 2003, o cineasta carecia de uma história e um universo que se encaixasse perfeitamente com sua mente doentia/genial/alucinada. 
Se eu não soubesse que O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children, EUA, 2016) é a adaptação de um romance juvenil de imenso sucesso no mundo inteiro, teria dito algo do tipo "Só podia ser de Tim Burton". Isso porque o filme parece ter saído da cabeça do criador de Edward Mãos de Tesoura, tamanha a quantidade de personagens bizarramente encantadores espalhados pelas duas horas de projeção. Mas Tim Burton encontrou em Ramson Riggs, autor do livro, uma alma gêmea, alguém que claramente se inspirou em um monte de coisa esquisita e fascinante para criar sua história. Combinados com os cenários sombrios - quase todos locações reais - e com a habitual fotografia soturna/onírica do francês Bruno Delbonnel (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain), personagens e roteiro conseguem levar o público a uma imersão gradual no universo fantástico proposto pelo filme.
A trama é protagonizada por Jake (Asa Butterfield), um adolescente que se vê como um deslocado no mundo. Sem nenhum amigo, Jake cresceu ouvindo histórias fantásticas de seu único parceiro de conversas, seu avô Abe (Terence Stamp), sobre um orfanato milagroso, habitado por crianças invisíveis, mais leves que o ar, dentre outras habilidades, e dirigido pela enigmática Srta. Peregrine (Eva Green), cuja habilidade mágica é a de se transformar em aves. Depois de testemunhar a morte do avô em circunstâncias misteriosas, Jake lê um cartão postal vindo do tal orfanato e resolve seguir o conselho de sua terapeuta: viaja até o País de Gales, onde fica o lar, em busca de respostas. Quando finalmente encontra o Lar das Crianças Peculiares, o jovem descobre que todas as histórias que ouvia quando criança eram verdadeiras. O orfanato da Srta. Peregrine não somente é real, como todas as crianças peculiares continuam na mesma idade, graças a outra habilidade da diretora: a de criar um loop temporal em volta do orfanato, o que faz com que todos dentro do loop vivam o mesmo dia todos os dias, sem jamais envelhecer. Contudo, como já se espera, toda a vida bucólica dos órfãos da Srta. Peregrine está ameaçada pelos Etéreos, um grupo de seres dedicados a caçar as crianças peculiares, liderados por Barron (Samuel L. Jackson). A partir daí, cabe a Jake descobrir a verdade sobre sua origem e qual é seu destino.
A mistura de Harry Potter, X-Men, Star Wars e tantas outras referências da cultura pop funciona bem durante quase todo o filme. O estabelecimento das regras do universo dos peculiares é verossímil e eficaz, e os dois primeiros atos conseguem captar a atenção do público com eficiência. Mas é no terceiro ato que a coisa começa a degringolar. Justamente quando todo o conflito com os Etéreos caminha para sua solução, com a esperada luta final dos Peculiares contra seus antagonistas, o filme parece apressar os eventos, e acaba entregando uma conclusão que, embora divertida, não é empolgante o bastante. Além disso, o vilão vivido por Samuel L. Jackson é quase o mesmo personagem que ele viveu em Kingsman: Serviço Secreto, com todos os mesmo trejeitos e piadas que, afinal de contas, são marcas registradas do próprio Jackson, não de algum personagem específico, e isso estraga um pouco a tarefa de suspender a descrença do espectador.
Mesmo assim, O Lar das Crianças Peculiares ainda é uma boa opção de diversão para a família, embora crianças menores podem se assustar com algumas cenas mais gráficas e realmente assustadoras. O filme é Tim Burton voltando a contar uma boa história, ainda que precisando retomar a genialidade que lhe permitiu criar Peixe Grande.