O Quarto de Jack | Crítica

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Um garotinho de cabelos lisos e longos acorda ao lado de sua mãe no dia em que completa 5 anos e, como faz todos os dias, cumprimenta cada móvel e objeto que compõem seu Quarto: "Bom dia, cama. Bom dia, pia. Bom dia, armário. Bom dia, claraboia..." Depois de escovar os dentes e de tomar o café da manhã, sua mãe lhe diz que eles farão um bolo de aniversário, para comemorar a data especial. As horas se passam, e nem o menino ou sua mãe fazem menção de deixar o Quarto, um lugar apertado, cuja única fonte de luz natural vem de uma claraboia no teto. É ali que eles brincam, fazem exercícios, assistem TV. É ali que eles dormem. E é ali que, tarde da noite, o garotinho pega no sono dentro do armário, e um homem entra no Quarto.
O Quarto é grafado assim, com letra maiúscula, porque aquele é o único lugar que Jack, o menininho, conhece na vida. Para Jack, sua mãe é simplesmente Mãe, assim mesmo, sem nome próprio, apenas a função afetiva que ela exerce sobre a criança. Os dois estão sozinhos ali e o Quarto é o mundo deles. Assim se passa a primeira hora de O Quarto de Jack (Room, Irlanda/Canadá, 2015), o filme mais belo e emocionante entre todos os indicados ao Oscar 2016. A dupla de protagonistas, Brie Larson (Mãe) e Jacob Tremblay (Jack), brilha em todos os sentidos. Ambos têm atuações fora do comum, simplesmente extraordinárias, que não deixam nenhum espectador incólume.
Ao viver uma jovem refém de um homem por sete anos, Brie Larson ingressa com propriedade no rol das atrizes mais importantes da história do cinema. Sua entrega ao papel é marcante, equilibrando doçura - direcionada ao filho - e angústia por ter tido sua vida roubada do resto do mundo. Se Larson não levar o Oscar de Melhor Atriz, tem algo extremamente errado com a Academia.
Mas é Jacob Tremblay quem realmente rouba a cena. E nem mesmo foi contemplado com uma indicação! O ator de 9 anos consegue a façanha de criar a ilusão de que o Quarto é maior do que realmente é. Com muita leveza e naturalidade, em nenhum momento tem-se a sensação de que suas falas são decoradas e que suas lágrimas e arroubos de desespero não são reais. A câmera incessantemente posicionada de modo a sempre mostrar as expressões faciais e as reações do menino, que também é o narrador do filme, colabora para criar um ambiente onírico - e sinistro -, crédito do diretor, Lenny Abrahamson.
Como filme, O Quarto de Jack é uma história de amor entre mãe e filho contada sem afirmar o óbvio e com um roteiro incrivelmente bem construído sobre a fonte original, um romance escrito por Emma Donoghue, que também é responsável pelo roteiro.
O Quarto de Jack é, sem dúvida, o filme indicado ao Oscar 2016 que mais tem a capacidade de tocar e aquecer o coração do público. E cumpre sua missão, encerrando-a com honras.

O Quarto de Jack (2015) on IMDb