'Game of Thrones' e os livros: porque a versão para a TV está ganhando

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Por Chris Taylor, do mashable.com

Alerta: este post contém spoilers a respeito da série até o episódio 2 da 5ª temporada de Game of Thrones, bem como dos livros.

Um homem não deve ler os livros; um homem deve ver 'Game of Thrones'
Por anos, nós leitores das Crônicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin fomos superiores aos espectadores da série Game of Thrones, da HBO. O programa é baseado nos livros, o que permitia que nós soubéssemos o que estava por vir na série.
Mal podíamos esperar para ver a reação das pessoas à execução surpresa de Ned Stark, à batalha da Água Negra, ao Casamento Vermelho, ao envenenamento de Joffrey ou à derrota de olhos abertos da Víbora Vermelha. Em nossa antecipação elevada, podemos até mesmo ter deixado escapar um ou dois spoilers aqui e ali. Foi mal.
Mas fãs somente da série da TV, vocês agora são senhores sobre nós, leitores dos livros. Por quê? Porque na 5ª temporada, no episódio 2, os roteiristas tomaram diversas decisões que colocam o programa em uma trilha radicalmente diferente pela primeira vez - uma que habilmente evita os enormes problemas narrativos inerentes nos dois últimos livros.
Até agora, um personagem morreu na série ao invés de ser salvo e enviado em uma missão improvável; outra descobriu o propósito de sua jornada, ao invés de vagar sem razão; outro foi eleito para um novo papel de um modo muito mais verossímil.
Dois favoritos dos fãs partiram em uma missão até Dorne juntos, um uso muito melhor do tempo deles do que o nada em que eles se encontram nos livros, enquanto um rosto familiar retorna no momento exato, no lugar de nunca ser visto novamente.
Resumindo, os espectadores da série ganharam, porque eles não têm que caminhar pesadamente por três mil páginas que contêm, na verdade, histórias sem importância. A versão que os espectadores têm de Westeros tem um elenco muito mais condensado e envolvente. É a versão que me agrada muito mais.
Não é que a série esteja adiante dos livros - pelo menos, ainda não. É que sua narrativa parece realmente funcionar.
Em 1996, Martin publicou o primeiro livro, A Guerra dos Tronos, o primeiro do que deveria ser uma trilogia, que foi aclamado pela crítica. Em 1998 veio o segundo volume, A fúria dos reis, e eis que era ainda melhor. O ano 2000 viu o terceiro livro, A tormenta de espadas, que foi talvez um dos tomos mais densos e surpreendentemente consistentes que já li em qualquer gênero. A HBO precisou de duas temporadas da série para fazer justiça a este livro.
E depois? Martin distorceu suas palavras e seus personagens viraram de cabeça para baixo. Ele se sentou em sua casa no Novo México, digitando página por página, introduzindo um personagem novo atrás do outro em seu mundo de Westeros, mas não avançando de fato em nenhum de seus arcos - e certamente não no seu ritmo anterior. O festim dos corvos saiu em 2005, e só continha metade dos personagens com os quais estávamos familiarizados. Nada de Daenerys. Nem Jaime Lannister. Não soubemos nada sobre Jon Snow.
Na introdução de O festim dos corvos, Martin admitiu que a segunda metade de sua narrativa saíra de seu controle, e seria lançada no ano seguinte sob o título A dança dos dragões. Na verdade, o livro só seria lançado cinco anos depois.
Quando chegou, Dragões estava cheio de muitos dos mesmos problemas de Corvos - personagens novos demais, pouca continuidade. Nas palavras de um crítico da Amazon, "esta 'canção' está se tornando uma improvisação sem fim".
Fomos apresentados a uma longa lista de nomes em Dorne, nas Ilhas de Ferro, na Cidadela, na estrada para Meereen, e um monte de outros lugares, sem que houvesse razão para nos importarmos com eles. Martin assimilou a lição errada do sucesso dos primeiros três livros: que nós teríamos interesse em qualquer pessoa que tivesse alguma coisa a ver com qualquer lugar de Westeros.
Errado. Temos interesse em tudo que tenha a ver com os personagens que aprendemos a amar, ou a odiar. Queremos saber se eles vivem ou morrem; queremos saber quem vai ganhar o jogo dos tronos e sobreviver ao inverno que está chegando.
Os produtores, David Benioff e Dan Weiss, têm sido bem menos auto-indulgentes. (E por uma boa razão - se um livro só é comprado um milhão de vezes, ainda é um enorme sucesso para os editores. Mas se uma série perde um milhão de espectadores, é um desastre.)
Benioff e Weiss já fizeram abordagens diferentes dos livros antes. Eles já combinaram personagens e encurtaram histórias; já fizeram mudanças inspiradas, como fazer de Arya Stark a copeira de Tywin Lannister, ao invés de Roose Bolton, na 2ª temporada. Mas no geral, vinham se detendo na trama maior de Martin.
Não mais. Agora, ao invés de ter um falso Mance Rayder queimado enquanto um verdadeiro de repente concorda em se tornar um espião em Winterfell, eles simplesmente queimaram Mance Rayder. Sua morte agora importa.
Ao invés de fazer com que Brienne de Tarth vagueie por Westeros por centenas de páginas, ela encontrou sua missão - Arya Stark e Sansa Stark - e foi rejeitada por ambas. Sua busca contínua por Sansa se torna muito mais dura.
Quando apresenta o reino de Dorne, o programa nos dá uma personagem familiar para nos agarrar: Ellaria Sand, ainda enlutada pela morte cruel de seu amante Príncipe Oberyn na última temporada. Nos livros, suas falas foram ditas por uma das filhas de Oberyn, alguém que nós mal conhecemos e por quem, na verdade, nós não estamos nem aí.
Nos livros, Jaime Lannister passa capítulos intermináveis sitiando castelos. Os produtores, corretamente, raciocinaram que seria melhor uni-lo a Bronn, que nos livros entra em uma série inconsequente de travessuras em seu novo castelo, e os envia para salvar Myrcella das garras de Dorne.
Também temos o amigo troca-rosto de Arya Stark, Jacquen H'ghar, que aparece em Braavos em uma revelação maravilhosamente recompensadora no final do episódio 2. No livro, ele meio que possivelmente talvez aparece em um lugar diferente em um momento diferente.
Resumindo, aonde quer que Martin pareça estar saindo dos trilhos para manter as cordas desamarradas, apresentar novas cordas entediantes e frustrar o leitor, Benioff e Weiss estão fazendo o contrário - costurando cordas e deleitando o espectador.
"Deleitando", é claro, é um termo relativo em um arenoso mundo medieval cheio de desespero e derramamento de sangue. Mas há certas regras nas narrativas que têm sido firmadas por séculos, tanto na tragédia como na comédia. Ao fazer jus a tais regras, mesmo com o próprio George R.R. Martin pairando como produtor executivo, o time da HBO parece estar mais pronto para nos levar pela jornada.