O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro | Cadê o Peter Parker que aprendemos a amar?

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O Homem-Aranha, personagem criado por Stan Lee na década de 1960, já deixou de ser "propriedade" dos leitores de quadrinhos há muito tempo, precisamente desde 2002, quando foi lançado o primeiro filme com Tobey Maguire, dirigido por Sam Raimi. Desde então, todos (ou quase todos) os produtos de entretenimento com o "Amigão da Vizinhança" como protagonista têm como alvo principal o público que lota as salas de cinema a cada novo filme do personagem.
Quando a Sony decidiu relançar a franquia em 2012, alguns fãs mais ferrenhos alimentaram alguma esperança de que todos os erros cometidos em Homem-Aranha 3 seriam corrigidos e novos níveis de espetáculo seriam alcançados. A trilogia de Sam Raimi havia sido ótima até o segundo capítulo, estabelecendo um padrão altíssimo que não pôde ser igualado nem pelo próprio Raimi, atolado em exigência mercadológicas e pressões do estúdio para entregar um filme cada vez maior em escala e número de vilões. Enfiar goela abaixo do público três vilões sem desenvolver bem nenhum deles foi o maior erro de Homem-Aranha 3, como também já havia sido um dos grandes erros de outras bombas como Batman & Robin, de Joel Schumacher. Reiniciar a história parecia algo lógico a se fazer (para o estúdio), já que nem Sam Raimi nem Tobey Maguire topariam retornar para novos filmes.
Assim, apaga-se tudo o que já foi construído até ali e recomeça-se do zero, com um ator mais jovem e novas propostas criativas. O escolhido foi Marc Webb, diretor cult que já havia feito sucesso com (500) Dias Com Ela e estava no radar de todos os produtores de Hollywood. Para viver Peter Parker, o eleito era Andrew Garfield, jovem e desconhecido ator, com um carisma capaz de rivalizar com o de Tobey Maguire, mas um pouco mais novo. Para fechar a renovação, os roteiristas decidiram começar a história como Stan Lee fizera na década de 1960: com Peter Parker se apaixonando por Gwen Stacy, que seria vivida por Emma Stone.
Assim foi. O primeiro filme O Espetacular Homem-Aranha, um sucesso acachapante. A escolha do Lagarto como vilão pareceu acertada, e o Aranha aqui não lançava teias orgânicas, mas construía seu próprio lançador, exatamente como nas HQs. Os fãs pareciam satisfeitos, mas algumas coisas estavam fora do lugar. Como no primeiro filme, a sequência, A Ameaça de Electro, mostra um Peter Parker descolado demais para ser aquele nerd dos quadrinhos, um adolescente que não sofre bullying, que não padece de nenhum problema na escola, e que tampouco parece ter aprendido a lição de que com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades.
A opção de inserir uma trama de conspiração em toda a origem do herói também é uma bola fora dos filmes de Marc Webb. Uma das sagas mais criticadas pelos fãs dos quadrinhos foi a "Saga dos Clones", que tentava criar um motivo para a transformação de Peter Parker em Homem-Aranha. Mas o que torna a história do super-herói crível e fascinante é justamente o fator acidental, o mero acaso que transformou um adolescente comum em um ser humano com poderes espetaculares. Ter Parker como um cara que anda de skate cujos pais foram assassinados por uma conspiração corporativa, e que ainda conquista tão facilmente uma Gwen Stacy que parece ainda mais inteligente que ele é um desvio e tanto no personagem criado por Stan Lee.
Ainda assim, O Espetacular Homem-Aranha 2 acerta em muitas coisas. As cenas de ação são o maior trunfo do filme, embora sejam poucas. E o relacionamento entre Peter e Gwen é algo lindo de se ver. O personagem também está mais "engraçadinho" que na trilogia de Sam Raimi, o que é legal. E um dos acontecimentos mais dolorosos em toda a história dos quadrinhos está no filme, reproduzido com uma fidelidade assustadora.
Na verdade, o filme de Marc Webb contempla, sim, um público de quadrinhos, mas o que é leitor da versão ultimate do personagem, mais jovem e antenado com as mudanças do século 21. De uma forma ou de outra, a essência do Homem-Aranha ainda está lá, com algumas concessões que incomodam os fãs mais antigos, mas que não parecem perturbar nem um pouco os novos.