'Noé' | Uma visão equivocada para um conto milenar

, , 1 comment
É impossível ver Noé (Noah, EUA, 2014) sem fazer a comparação com a fonte de inspiração do filme de Darren Aronofsky, que é o conto narrado no livro de Gênesis, uma história que mostra o tamanho da maldade dos homens e como Deus diz ter se arrependido de tê-los criado. Com o propósito de recomeçar a criação, Deus ordena que Noé, o único homem justo da Terra, construa uma arca capaz de abrigar todas as espécies vivas, um casal de cada, e que também possa livrar Noé e sua família - que inclui suas três noras - do cataclisma inevitável, a destruição em forma de água, o dilúvio. Na Bíblia, Noé é bom, justo e leva a sério sua tarefa, construindo a arca por cerca de 120 anos, juntamente com seus filhos, até a chegada do dilúvio.
Já em Noé, o filme, Darren Aronofsky fez concessões sérias e alopradas em relação ao conto bíblico, inserindo elementos de lógica duvidosa e com a clara intenção de dialogar com os milhões de adolescentes que, afinal de contas, pagam as contas dos estúdios de Hollywood.
Para começar, o Noé interpretado por Russel Crowe parece over quase o tempo todo, com um olhar de quem está completamente perdido, como se estivesse tentando entender plenamente o que o Criador está lhe dizendo. Este ponto é positivo, porque é compreensível achar que Deus, de fato, não fala com seu servo, pelo menos não com aqueles vozeirões que nos acostumamos a ouvir nos filmes bíblicos do século passado. A voz do Senhor é ouvida por meio de sonhos e visões, que devem ser interpretadas por Noé para a realização de sua missão. Mas, enquanto a mensagem da construção da arca é bem compreendida, o mesmo não ocorre quanto à questão da continuidade da espécie humana, dilema que Noé carrega praticamente durante todo o filme. O problema nesta abordagem é a impressão que fica, de que Deus tenha mandado matar também a família de Noé, para que nenhum ser humano sobrevivesse.
Outro ponto forte na narrativa de Aronofsky está na representação que o filme faz dos homens ímpios, canibais, amorais, indecentes e pecadores ao extremo, iníquos mesmo, que se não fossem destruídos pelo dilúvio, certamente o seriam pelas próprias mãos. Estes são liderados por Tubalcaim (Ray Winstone), descendente de Caim e crente absoluto no poder do homem e em sua independência para conduzir seu próprio destino. A presença de Tubalcaim e suas convicções serve para antagonizar com a crença completa que Noé tem em Deus e em sua palavra, mas se torna excessiva, parecendo que o personagem não serve para nada além de criar um clímax, aquela "luta-final-entre-o-mocinho-e-o-bandido".
Há também a ambiguidade, e isso é positivo. Isso porque não dá para crer que Noé e sua família, mesmo sendo justos e bons, não tenham hesitado em nenhum momento sequer. Eles eram humanos, apesar de tudo. Ainda assim, a hesitação de Noé não está no cumprimento da missão dada a ele pelo Criador, mas na compreensão verdadeira da mensagem que lhe é dada.
E, finalmente, chegamos ao elemento que mais incomoda e causa estranheza (com razão) em Noé: os Guardiões, anjos caídos, expulsos do céu, que se fundem à terra de uma forma tão completa a ponto de se tornarem gigantes de pedra, quase antepassados dos Transformers. São os Guardiões que ajudam Noé na construção da arca, que, é claro, leva muito menos tempo para ser concluída. Esse artifício parece ridículo o tempo todo, e tem sido, justamente, motivo de piada para todos que assistem o filme. Como se fosse preciso algum artifício prototecnológico para tornar interessante uma história que tem resistido ao tempo e apela por si só a multidões, seguidores de três religiões, há milhares de anos. Aronofsky tinha um material e tanto nas mãos, tudo o que era necessário para criar o melhor filé mignon; no entanto, preferiu fazer um hambúrguer e servir com uma Coca-Cola. Era mais fácil assim.