Jogos Vorazes: Em Chamas - E Hollywood tem, de novo, uma heroína

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Imaginar que a adaptação para o cinema de um best-seller da literatura chamada de "juvenil" (ou "young adults", em inglês) fosse capaz de suscitar reflexões tão intensas e profundas era algo impensável quando o primeiro Jogos Vorazes foi lançado, em 2012. O filme estreou e a crítica aplaudiu a saga de Katniss Everdeen em um futuro distópico, no qual um país chamado Panem é dividido em 12 distritos, e onde todos os anos cada distrito sorteia dois jovens para participar de uma competição mortal, os Jogos Vorazes, na qual prevalece uma regra simples: vence o último competidor que continuar vivo, depois de matar todos os outros concorrentes.
Não só a crítica se apaixonou pelo filme. O público também respondeu mais do que positivamente, tornando o filme uma das maiores bilheterias daquele ano. Um ano depois, voltamos a acompanhar Katniss (Jennifer Lawrence) e Peeta Mellark (Josh Hutcherson), os vencedores dos últimos jogos (se você não viu o primeiro filme nem leu o livro, foi mal aí pelo spoiler...) enfrentando as consequências de sua vitória, que acabou ganhando um simbolismo inesperado para a população oprimida de Panem. Em Jogos Vorazes: Em Chamas, temos uma visão ampliada do regime totalitário do país governado pelo Presidente Snow (Donald Sutherland), que abafa qualquer tentativa de rebelião com tortura, intimidação e execuções. Enquanto os dois vencedores dos jogos saem em turnê pelos distritos como peças de propaganda do regime, algo no ar cheira a revolução, e desde o começo do filme sabemos que alguma coisa pode explodir a qualquer momento.
Para tentar debelar uma iminente tentativa de revolução, o presidente segue os conselhos de Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman, em um de seus últimos papéis), o novo diretor dos jogos, e convoca todos os vitoriosos dos jogos anteriores que ainda estão vivos para serem parte do Massacre Quaternário, uma edição especial dos Jogos Vorazes que acontece a cada 25 anos. Sabendo da grande possibilidade de ser morta - como é a vontade do presidente Snow -, Katniss tem novamente que lutar pela sobrevivência em um ambiente ainda mais mortal que o anterior, onde ela e Peeta terão que enfrentar mais do que somente os outros competidores. O ambiente controlado do Massacre Quaternário traz desafios duros, como relâmpagos, ondas gigantes, macacos furiosos, pássaros perturbadores (alguém lembrou de Os Pássaros aí?) e até uma chuva de sangue. Em meio a tudo isso, a heroína mais incrível do cinema desde uma certa Tenente Ripley vai descobrir que há mais do que ela imagina em todos os atos de seus aliados no jogo. A história é tão completa e o roteiro tão inteligente que o trabalho do diretor, Francis Lawrence (de Água para Elefantes), parece até mais fácil.
Em Chamas é um filme "de adolescente" como nenhum outro que tem sido lançado tentando aproveitar o sucesso de Crepúsculo. Estamos falando de um filme que mais se assemelha a obras como Laranja Mecânica e O Império Contra Ataca do que a bombas que misturam vampiros que viram cristal, lobisomens que só são lobos e ausência completa de carga dramática e relevância artística. É, sim, uma obra de arte, um filme tenso e profundo, capaz de provocar reflexões sobre política, filosofia, amadurecimento e o papel da mulher na sociedade. E ainda diverte! Não é todo dia que um blockbuster consegue citar Alfred Hitchcock e George Orwell e ainda ser um sucesso avassalador de bilheteria.

Jogos Vorazes: Em Chamas (2013) on IMDb