Dois filmes que retratam uma sociedade doente (de corpo e alma)

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Todos os anos Hollywood despeja centenas de filmes agradáveis, cheios de bom humor, bonequinhos adoráveis e coloridos e mensagens positivas. Por outro lado, os filmes mais tensos, realistas e pessimistas vão ficando em segundo plano. Uma pena, já que normalmente são estes filmes os mais interessantes, por refletirem simplesmente o mundo como ele é - ou ao menos como não é retratado no cinema moderno.
Em 2013, dois filmes se encaixam nessa visão pessimista e a retratam com qualidade e brilhantismo: Bling Ring - A Gangue de Hollywood e Terapia de Risco.

Bling Ring - A Gangue de Hollywood, da diretora Sofia Coppola (As Virgens Suicidas, Maria Antonieta), conta a história real de um grupo de cinco adolescentes obcecados pelas vidas das celebridades que invadiram e roubaram inúmeros itens das casas de famosos como Paris Hilton, Lindsay Lohan, Megan Fox, Orlando Bloom e Audrina Partridge (esta pouco conhecida no Brasil, estrela de um reality show da MTV americana). O caso ganhou ainda mais notoriedade depois da revelação de que as celebridades sequer notaram os roubos. Os jovens (uma das meninas do grupo é representada por Emma Watson) entravam nas casas, levavam sapatos Louboutin, relógios Rolex, vestidos de Alexander McQueen, dentre outras grifes caríssimas, e simplesmente saíam sem nenhum problema. Muitas vezes as casas nem mesmo estavam trancadas, e Paris Hilton deixava as chaves embaixo do tapete!
Sofia Coppola, em sua jornada por mostrar o vazio de uma sociedade elitizada e absurdamente rica - sendo ela mesma parte desta sociedade, ela é filha de Francis Ford Coppola - segue realizando pequenas obras-primas que dão conta de refletir uma cultura consumista, na qual quem tem mais coisas, tem mais amigos, consegue os melhores lugares, e é mais feliz, ou tem mais a ilusão de felicidade. Seus protagonistas sempre são, no fim das contas, possuidores de uma infelicidade crônica. Assim é em Bling Ring. A gangue do subtítulo nacional acaba sendo presa e tem seus quinze minutos de notoriedade, apregoados por Andy Warhol nos anos 60. Mas é só. O vazio em suas vidas permanece. E a tristeza também.

Terapia de Risco, dirigido por Steven Soderbergh (Onze Homens e um Segredo, Contágio), mostra um outro lado da sociedade: aqueles profissionais, bem sucedidos ou não, que não conseguem viver sem o auxílio de remédios. Pílulas no estilo Xanax, que mantém a todos os usuários num ciclo aparentemente sem fim, sem luz no fim do túnel.
O thriller conta a história de Emily (Rooney Mara), que acabou de ter seu marido Martin (Channing Tatum) solto da prisão, onde esteve por crimes financeiros. Ainda assim, a jovem desenvolve sintomas de depressão e, depois de uma tentativa de suicídio, torna-se paciente do Dr. Jonathan Banks (Jude Law), que lhe prescreve um novo medicamento que ainda está em fase de testes. O remédio traz efeitos colaterais que se revelarão trágicos para Emily. Sem poder revelar muito da trama, pode-se apenas dizer que Terapia de Risco tem algumas (boas) reviravoltas em um roteiro inteligente e elegante.

Em comum entre os dois filmes, está a sociedade por eles retratada: doente, vazia e viciada em Ritalina.