LiteraPop #4: Elogio da mentira, de Patrícia Melo

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Não gosto muito de me aventurar em resenhas literárias. Isso porque sempre acho que algum detalhe muito importante da minha impressão do livro durante a leitura ficou de fora. Talvez porque seja assim mesmo, nunca se consegue falar tudo sobre um livro, ainda mais em uma única resenha, em uma mera postagem de um blog. Acho que por isso não escrevo sobre todos os livros que leio, que são muitos. Mas resolvi voltar a fazê-lo depois de ler Elogio da mentira (Ed. Rocco, R$29,90, 187 págs.), terceiro livro de Patrícia Melo, que escreveu obras famosas como O matador (que virou o filme O homem do ano, com Murilo Benício) e Valsa negra. Antes de me deparar com este livro nas prateleiras da biblioteca da Universidade Federal de Sergipe, eu mesmo nunca ouvira falar a respeito dele, que foi publicado em sua 1ª edição pela editora Cia. das Letras. Boa surpresa, esta.
É possível ler Elogio da mentira de várias formas, mas acho que as duas formas mais interessantes são como um romance policial (ou a paródia de um) e como uma crítica ao mercado literário de auto-ajuda e livros exotéricos (ou ao mercado literário como um todo). O protagonista, José Guber, é um escritorzinho medíocre de romances vendidos em banca, desses que o autor inventa um pseudônimo americano e aproveita para copiar tramas de clássicos para leitores ávidos por histórias com muito sangue, sexo e clichês. Sem ideias boas para novos livros - depois de 14 obras já publicadas sob pseudônimos - José tem apenas quinze dias para entregar uma sinopse que seja aprovada por seu editor. Ele conhece Fúlvia, uma especialista em cobras, a quem consultou em busca de uma consultoria para um possível livro que escreveria, no qual o crime estaria relacionado com serpentes. Fúlvia logo o atrai, e os dois logo se apaixonam. O problema é que a mulher é casada, e vive a reclamar dos
Patrícia Melo
maus tratos sofridos nas mãos do marido. Os dois têm um relacionamento tórrido, e em meio ao convívio estão sempre conversando sobre os crimes dos livros de José, além de possíveis novos crimes. José também passa a admirar cobras e até começa a criar uma, sob influência de Fúlvia. Não demora muito até que a mulher o convença a matar o marido, o que será decisivo para a vida de José, de Fúlvia e de todos os que estão ao seu redor.
Em uma narrativa onde as falas se sucedem sem aspas ou travessões, e na qual a história de José (narrada em primeira pessoa) é interrompida regularmente com correspondências entre o protagonista e seu editor, entre ele e sua mãe e outros personagens importantes na trama. Além do conto de crime, a autora também encontra espaço para ironizar o mercado editorial, especialmente nos diálogos entre José e seu editor. Em um certo momento, debatendo uma sinopse do escritor que é rejeitada, Wilmer (o editor) fala:
"Quem quer saber de culpa e arrependimento? Queremos ação. Sangue Violência. Você já escreveu catorze livros e ainda não aprendeu? Não leu as regras do Van Dine? Estão pregadas no nosso mural, as regras do Van Dine. Um romance policial precisa de um cadáver, e quanto mais morto ele estiver, melhor. E não pode ser um cadáver qualquer. Como vamos despertar o sentimento de vingança nos leitores matando uma velha sarnenta e indesejável? Se uma velha dessas morre, o povo aplaude."
 Dividido em três partes, Elogio da mentira apresenta personagens envolvidos nas teias tecidas por eles mesmos: mentiras e artimanhas, engodos e falsidade, nas quais cada vez mais vão se afundando, até se verem sem saída. O livro fala de ciúmes e medo, morte e culpa, sem que seus personagens obtenham a redenção. É literatura moderna e sofisticada, e sendo apenas o terceiro livro de Patrícia Melo, mostrava em 1998 - ano da publicação da 1ª edição - uma autora capaz de uma carreira muito sólida e madura.