Segredos de Sangue - Diretor de Oldboy filma em Hollywood (e não perde seu estilo)

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A sensação é de alívio. Mesmo filmando em Hollywood, Chan-Wook Park não perdeu seu estilo sangrento de contar suas histórias sombrias. Não está ligando o nome à pessoa? Park é simplesmente o cara que dirigiu Oldboy, um dos filmes sul-coreanos mais sensacionais dos últimos 20 anos, e que está em pleno processo de refilmagem americana, comandada por ninguém menos que Spike Lee.
Park aportou nos Estados Unidos e, de cara, já dirigiu a ganhadora do Oscar, Nicole Kidman, que mesmo não estando nos seus melhores dias - em relação à fama, digo - ainda é uma estrela. A atriz de Moulin Rouge e As Horas não está sozinha. Ela tem a companhia de Mia Wasikowska, que é, para mim, a jovem atriz com maior potencial. Ela estreou em Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, e mostrou seu imenso talento no papel-título de Jane Eyre, de Cary Fukunaga. Também esteve em Minhas Mães e Meu Pai e no recente Os Infratores, sempre tendo algum destaque nas tramas. Além das duas atrizes, fecha o elenco Matthew Goode (o Ozymandias de Watchmen), como o perfeito sedutor misterioso, vetor do sinistro triângulo amoroso que é o centro da trama de Segredos de Sangue (Stoker, EUA/Inglaterra, 2013).
Mia é India Stoker, uma jovem de temperamento retraído e reservado, cujo único amigo, seu pai (Dermot Mulroney, aparecendo somente em flashbacks), acaba de morrer em um estranho acidente de carro. Ela agora terá de conviver com sua mãe, Evelyn (Nicole Kidman), com quem não tem nada em comum a não ser a ligação sanguínea, e seu tio, Charlie (Matthew Goode), cuja existência lhe era desconhecida até o funeral de seu pai.
Charlie se torna parte da vida das duas sem ter sido convidado, e sua personalidade misteriosa e sedutora logo se torna palpável e estranhamente confortável para Evelyn, que mal enterrou o marido. Misteriosamente, todos os que questionam a oportuna volta de Charlie ao convívio familiar acabam desaparecendo, o que desperta a atenção de India. Mas o que ela descobrirá não trará nenhum alívio à sua vida.
Todo o clima de Segredos de Sangue remete aos melhores filmes de suspense e horror familiar que já foram feitos. Desde o próprio título original "Stoker", nome da família do filme - que remete ao autor de Drácula, Bram Stoker -, tudo no filme é marcado com uma sensação desagradável de que algo muito ruim poderá acontecer em seguida. A fotografia cumpre um papel decisivo aqui. Todas as cenas parecem construídas no intuito de criar uma atmosfera claustrofóbica, especialmente a angustiante cena do clímax. Ajuda muito a atuação de Matthew Goode, que parece muito confortável no papel de Charlie, aquele cara capaz de qualquer coisa para atingir seus objetivos. Nicole Kidman também cumpre bem sua função, cada vez mais comum em sua carreira, de ser a quarentona enxuta capaz de arrancar suspiros. Mas é Mia Wasikowska quem realmente se destaca aqui. A jovem atriz mostra-se capaz de encarnar com perfeição a fragilidade de quem está deixando a adolescência e o ímpeto de quem está chegando à fase adulta. Aliás, este é o grande tema de Segredos de Sangue: a passagem para a vida adulta, mesmo que o tema seja abordado de uma maneira mórbida e sinistra - à moda de Chan-Wook Park, é claro.
Se depender de Segredos de Sangue, o futuro de Park (e Wasikowska) em Hollywood será brilhante.

Segredos de Sangue (2013) on IMDb