Playtime - Tempo de Diversão: clássico eterno de Jacques Tati

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O Sr. Hulot, tentando se localizar na loucura do mundo moderno
Quando O Mágico, animação francesa de 2010, foi lançada, ouvi falar pela primeira vez em Jacques Tati. Isso porque o filme era baseado em um roteiro de Tati, jamais filmado. Ouvi falar dele, mas ainda assim não procurei assistir a nenhum de seus cinco filmes. Três anos depois, novamente o encontro nas páginas do livro "1001 filmes para ver antes de morrer", no qual três dos seus filmes estão listados: Meu Tio (1958), As Férias do Sr. Hulot (1953) e este Playtime - Tempo de Diversão (1967). Pronto a corrigir meu erro, fui em busca desta última, que é considerada sua obra-prima. E devo admitir, quanto tempo perdi sem conhecer tão rica obra!
O diretor, ator e mímico francês possuía um raro apuro visual e a mais rara ainda habilidade de dirigir uma cena como poucos cineastas. É exatamente essa habilidade o elemento crucial a contribuir para a originalidade de Playtime. Entretanto, Playtime é menos um filme do que um verdadeiro poema visual, repleto de detalhes que enchem toda uma cena, a ponto de muita coisa ser percebida somente quando se assiste uma segunda vez, e ainda uma terceira.
Cada detalhe em cena é milimetricamente calculado em 'Playtime'
Personagem constante em sua obra, o Sr. Hulot é a peça central do filme, embora não esteja lá para contar uma história, quer dizer, uma narrativa nos moldes aos quais estamos acostumados no cinema, com começo, meio e fim, ou três atos e um fechamento com um clímax onde todos os conflitos dos personagens se resolvem. Aqui a linha narrativa não passa de um fiapo, um pretexto para Tati desfilar diante dos olhos do espectador uma crítica a um mundo cada vez mais industrializado (as semelhanças com Chaplin e seu Tempos Modernos não são coincidência), no qual não se presta muita atenção ao indivíduo, ou às pequenas coisas da vida. Neste sentido, o filme de Tati se assemelha - na temática - a O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, em sua abordagem da importância que cada um possui no universo.
Mas vamos à narrativa: Hulot chega em uma cidade futurística, passeia pelo aeroporto, vai até um prédio onde deve falar com um executivo de uma empresa, depois termina a noite em um restaurante, onde conhece uma jovem turista e por ela se encanta. Mas em Playtime o que menos importa é onde Hulot vai chegar, e sim tudo o que acontece à sua volta. A cidade, no filme de Tati, é um personagem - talvez até a protagonista da ação - que vai se mostrando aos poucos em toda sua frieza, seus prédios de arquitetura padronizada, seus chãos encerados, seus edifícios de escritórios repletos de cubículos solitários e seus cidadãos tomados por uma pressa constante. O cineasta gastou muito dinheiro para construir sua cidade praticamente inteira, com o aeroporto, o prédio de escritórios, o "museu de novidades" e ainda estradas, ruas e casas. Tudo o que está em cena pode servir como ferramenta para o andamento do filme, o que torna tudo ainda mais rico. Entretanto, Playtime foi um fracasso magistral de bilheteria, o que quase levou o diretor à falência. Tati ficou quatro anos sem dirigir e pensou em desistir de sua arte. Somente anos depois é que o filme chegou ao patamar no qual hoje se encontra. Ainda bem, porque estamos falando de uma verdadeira obra de arte.
A cena do restaurante tem 45 minutos
Em cada fotograma, detalhes são despejados e por isso o ato de assistir ao filme é mais do que simplesmente isso; é uma experiência visual apurada. Hulot, desengonçado em sua delicadeza e extrema polidez, interage com este mundo do futuro de maneira empírica, tocando nas geringonças tecnológicas, quebrando-as e se metendo em pequenas encrencas que fazem a graça da trama. Mas não espere gargalhadas aqui. Playtime é uma comédia de detalhes, que os utiliza muito mais para causar a reflexão do que para fazer rir.
Os momentos memoráveis são muitos, mas para mim destaca-se a cena em que um singelo buquê de flores campestres, oferecido por Hulot à jovem turista, é comparado a um emaranhado de postes de luz, como se a doçura do amor repentino fosse capaz de iluminar. Como eu disse, Playtime é um poema visual, eternamente marcado na história do cinema como um dos maiores filmes de todos os tempos.

Playtime - Tempo de Diversão (1967) on IMDb