Django Livre - Ou "A História Segundo Quentin Tarantino Parte 2"

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A força de Quentin Tarantino no cinema moderno não é pouca coisa. Se há cinco anos esta força era apenas relacionada à sua influência em toda uma geração de cineastas, depois de Bastardos Inglórios o poder do diretor passou a ser também nas bilheterias. O filme de guerra de 2009 arrecadou mais de 120 milhões de dólares só nos EUA, tornando-se a primeira vez que Tarantino chegava ao topo do ranking de venda de ingressos. Apesar de longo e extremamente violento, a reinvenção da Segunda Guerra Mundial do cineasta que começou a carreira como balconista de videolocadora tornou-se uma referência e um alento a quem considerava o tema ultrapassado e superestimado.
O passeio pelos gêneros - e sua consequente reinvenção embalada em forma de homenagem - continua em Django Livre (Django Unchained, EUA, 2012), no qual Tarantino - ele mesmo acabou virando sinônimo de gênero: quantas vezes já não lemos que tal filme é bem "tarantinesco"? - restabelece toda uma mitologia do gênero americano definitivo: o western. Na verdade, ao contar a história do escravo liberto transformado em pistoleiro quase imbatível em busca de vingança e redenção, o diretor faz com que o faroeste torne-se relevante para o século XXI, quase o que Clint Eastwood fizera na década de 90 com Os Imperdoáveis.
Além disso, Django Livre pode ser tido como a parte do meio de uma trilogia, aliás, como o próprio Tarantino já afirmou, na qual a história segue sendo mostrada na visão do diretor. Se em Bastardos Inglórios Brad Pitt era o líder de um batalhão de judeus caçadores de nazistas, em Django Livre Christoph Waltz é King Schultz (papel que lhe rendeu seu segundo Oscar de Ator Coadjuvante - o primeiro fora justamente por seu papel em Bastardos), um caçador de recompensas alemão, assassino frio de gente da pior espécie, que sai em busca de irmãos criminosos procurados e precisa da ajuda de Django (Jamie Foxx), um escravo que conhece os tais bandidos. 
Aos poucos vamos conhecendo a história de Django: separado de sua esposa (Kerry Washington), que foi vendida para um sádico escravista Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), fazendeiro milionário que se diverte vendo negros lutarem até a morte, e aprecia assistir cães dilacerarem escravos fugitivos. Ao saber do passado triste de seu novo amigo, Schultz resolve ajudá-lo a resgatar sua amada das mãos do vilão. A jornada será, com toda certeza, violenta e com sangue espirrando por todos os lados (e Samuel L. Jackson!).
Iconoclasta como é, Tarantino cria sua própria imagem da escravidão, e tenho que dizer, não é nada bonita. Ainda assim, o filme alterna cenas genuinamente engraçadas - a cena com Jonah Hill (Superbad - É Hoje) e Don Johnson (da série Miami Vice) e sua tropa de protomembros da Ku Klux Klan lutando para enxergar alguma coisa em suas máscaras brancas é hilária - com momentos de dramaticidade e uma violência estetizada, exageradamente criticada, pois os caçadores de nazistas do filme anterior são muito mais violentos e sanguinários. Neste sentido, Django está mais para Kill Bill do que para Bastardos.
Django Livre é um western excelente. Presta homenagem descarada aos filmes do gênero produzidos na Itália nos anos 60, chamados de western spaghetti, estrelados por Franco Nero, Clint Eastwood, Charles Bronson, Claudia Cardinalli e outros grandes astros do cinema. É divertido, sem deixar de levantar uma ótima oportunidade para reflexão sobre os terríveis erros que a humanidade já cometeu. E é Tarantino, em sua plena (e melhor) forma.

Django Livre (2012) on IMDb