O Lado Bom da Vida

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Pat é um professor que teve um surto psicótico ao encontrar sua esposa em pleno ato sexual com um professor colega de trabalho; ele surrou tanto o colega a ponto de quase o matar, e foi internado em uma instituição psiquiátrica, sendo diagnosticado com transtorno bipolar. De volta depois de seis meses internado, morando com seus pais, Pat quer provar ao mundo - e principalmente à sua esposa - que está mudado e consegue controlar seu transtorno, para se reinserir à convivência normal da sociedade. Tal objetivo fica mais difícil depois que ele conhece Tiffany, uma garota linda e misteriosa, que tem seus próprios transtornos.
Os primeiros dez minutos de O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, EUA, 2012) introduzem o personagem que, vivido por Bradley Cooper, tem potencial para se tornar cultuado até mesmo por aqueles que detratavam o ator, que se firmou depois do sucesso estrondoso da comédia Se Beber Não Case. Não que Bradley já não fosse digno de nota desde que estrelou Sem Limites e demonstrou uma capacidade dramática surpreendente. Mas é em O Lado Bom da Vida, dirigido por David O. Russel (O Vencedor, Três Reis), que o ator extrapola quaisquer expectativas e mostra todo o seu talento, desde já premiado com uma indicação ao Oscar de Melhor Ator.
A propósito, O Lado Bom da Vida foi abraçado pelo Oscar de maneira calorosa. Foram oito indicações, incluindo Melhor Filme, Diretor, Atriz (Jennifer Lawrence), Ator Coadjuvante (Robert De Niro), Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver) e Roteiro Adaptado (escritor pelo próprio diretor a partir do romance homônimo de Matthew Quick). Dentre todos os indicados, a comédia dramática é a única com condições de levar todos os cinco prêmios principais da Academia.
As indicações são justas. Afinal de contas, esta não é uma comédia romântica comum. O que parece é que todo o elenco teve algo como uma epifania dramática, tamanha é a entrega vista em todos que aparecem em cena. Ao contrapor a loucura de Pat com a que está presente em todo o resto da sociedade, o filme reflete a famosa máxima que diz que "de perto, ninguém é normal". Além de Pat, temos Pat Sr. (Robert De Niro), um apostador compulsivo e mais supersticioso do que qualquer botafoguense doente, Ronnie (John Ortiz), o amigo que tenta disfarçar a tragédia de seu casamento gastando dinheiro a ponto de quase ir à falência, e a própria Tiffany (Jennifer Lawrence), viúva que procurou o sexo com todos em seu trabalho como uma forma de esquecer-se de sua tristeza.
Não parece ser o melhor cenário para uma comédia romântica, mas David O. Russel transforma todos estes personagens em elementos fundamentais que, além de verossímeis, são muito próximos da realidade. 
Apesar disso, há em O Lado Bom da Vida uma sensação de que já vimos isso antes, especialmente no final, altamente previsível - quem nunca viu uma cena em que o mocinho corre atrás da mocinha, que já desistiu, para declarar seu amor de forma "inesperada"? Talvez por causa disso a indicação a tantas categorias consideradas nobres do Oscar tenha causada tamanha surpresa e comoção. As indicações de Robert De Niro e Jacki Weaver, por exemplo, não se justificam - os dois não parecem ter feito nenhum esforço para cumprirem seus papéis. Ainda assim, o filme é divertido e levanta algumas questões relevantes e atuais, em meio a um mundo cada vez mais paranóico e cheio de surtos psicóticos: o fato de o personagem principal ser um professor é sintomático, se pensarmos em todas as tragédias americanas tendo escolas como cenários.
Se o final de toda essa história será no palco do Kodak Theater, com algumas estatuetas nas mãos, isso só o futuro dirá.

O Lado Bom da Vida (2012) on IMDb