Anna Karenina

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Quando uma nova adaptação do clássico romance do russo Leo Tolstói, Anna Karenina, foi anunciada, a sensação era a de mais do mesmo, uma tentativa clara de utilizar um material consagrado para realizar um filme pronto para os prêmios da Academia.
Mas depois que se soube que o diretor do projeto era Joe Wright, as desconfianças começaram a desaparecer gradualmente. Wright é desses cineastas que ainda não tiveram o reconhecimento merecido, por ser um artista com ideias diferentes em cada um dos seus filmes, que nunca são parecidos um com o outro. Mesmo em seu retorno aos romances épicos - ele fez o filme de ação Hanna, com trilha sonora dos Chemical Brothers - não existe fórmula pré-fabricada para suas produções.
A prova disso está em sua versão de Anna Karenina, com Keira Knightley no papel-título e Jude Law como o marido traído que, completamente apaixonado por sua mulher, resigna-se à condição de esposo não mais amado pelo objeto de sua afeição. Wright não se contenta em tornar a obra original em algo palatável ao público do século XXI; leva tudo a níveis ainda maiores, tudo por causa de suas escolhas narrativas.
O filme é quase inteiramente narrado dentro de um teatro, que o diretor construiu do zero em Shepperton, Inglaterra. A abordagem experimental é fundamental para o cineasta expressar sua interpretação da história. Assim, rinque de patinação, estações de trem e estábulos são todos montados no alto do teatro, acima do palco; e cenários-chave da narrativa, como o baile onde Anna conhece o Conde Vronsky, a casa do ministro Karenin, e até uma corrida de cavalos acontecem no palco do teatro. O cenário muitas vezes é alterado na frente das câmeras, enquanto os diálogos acontecem, recurso que lembra muitas vezes os filmes de Baz Luhrmann (Romeu + Julieta, Moulin Rouge), embora com uma fluidez que interfere muito menos na atenção do espectador, que não perde o foco dos personagens em cena. Até mesmo cenas externas acontecem de uma maneira artificial, usando trens de brinquedo e casas de bonecas.
Mas não se engane: Anna Karenina não é Dogville. Os produtores tinham muito dinheiro para gastar e aqueles elementos que enchem os olhos do espectador estão lá: o figurino exuberante e perfeitamente equilibrado com a história, a fotografia que alterna momentos de cores em profusão e cenas sombrias, e as atuações estelares. Neste ponto, entretanto, o diretor comete um erro grave: a escolha de parte do elenco, especialmente no ator escalado para o papel de Conde Vronsky, amante de Anna. Aaron Taylor-Johnson  (o Kick-Ass em pessoa) não tem o porte físico, muito menos a maturidade que justifique a escolha para o papel. É impossível acreditar que Anna Karenina se apaixonaria perdidamente por um garoto daquele, com um cabelo tingido de loiro e ar de moleque que mal saiu das fraldas.
Apesar disso, Anna Karenina ainda não tem seu saldo final inteiramente comprometido. Keira Knightley mostra-se uma atriz cada vez melhor e Jude Law é o perfeito marido traído conformado. Mas ainda o arco de personagens mais sólido do filme é o que gira em torno de Levin (Domhnall Gleeson) e Kitty (Alicia Vikander), esta a princesa rejeitada por Vronsky, que reluta em aceitar o amor de Levin, um fazendeiro completamente entregue ao amor pela princesa. Pertencem a ele as únicas cenas em locações reais, fora do teatro. É a forma que o diretor encontrou para contrapor a artificialidade vivida pela aristocracia russa - representada por Anna e seu círculo social - e a naturalidade de uma vida mais próxima da realidade, defendida por Levin.
No fim, tem-se a sensação de novidade, o que é um verdadeiro triunfo, considerando o fato de ser a adaptação de uma obra com mais de 100 anos de idade.

Em tempo: Anna Karenina estreia no Brasil em 15 de fevereiro.

Anna Karenina (2012) on IMDb