'Valente' - Com sua primeira princesa, a Pixar volta ao normal

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Todo mundo sentiu um toque de estranheza ao assistir Carros 2, de 2011, que a Pixar pareceu ter lançado como uma espécie de compensação comercial à Disney, proprietária do estúdio. Afinal de contas, a franquia de Relâmpago McQueen e Mate é a mais lucrativa marca da Pixar, com uma lista quase infinita de produtos licenciados e presença garantida no imaginário infantil por um bom tempo. Entretanto, o filme parecia mais um amontoado de imagens ágeis, com muita aventura, explosões e um protagonismo quase que total de Mate, com um roteiro raso e personagens em excesso, com pouco ou nenhum desenvolvimento deles. O resultado foi uma crítica estupefata: ninguém pensava que a Pixar faria algo assim, tão mercadológico. Ingenuidade da parte da imprensa especializada, é claro. Apesar de não seguir as regras comuns do mercado do cinema, a Pixar precisa, sim, capitalizar em cima de suas criações, e Carros gera muito capital.
OK. Regras do mercado à parte, não há como negar que o estúdio fundado por John Lasseter e desenvolvido por Steve Jobs é um dos poucos casos em Hollywood de companhia que preza muito mais a criatividade e a originalidade do que qualquer outra coisa. Prova disso é o fato de nunca ter feito uma adaptação literária, e jamais permitir merchandising (a não ser que seja do próprio estúdio) em nenhum filme seu.
Tendo dito isso, chegamos a Valente (Brave, EUA, 2012), que lançou a primeira princesa do estúdio (e a primeira protagonista feminina também). Nada mais coerente, afinal, a "companhia-mãe" Disney, praticamente inventou as narrativas de princesas no cinema. A princesa da Pixar é Merida (voz de Kelly MacDonald, de Boardwalk Empire), uma jovem princesa de um reino nórdico, cuja mãe se esforçou a vida inteira para educar segundo os preceitos que uma nobre deve seguir. Você sabe, todo aquele protocolo comum a toda princesa, os modos à mesa, o jeito de falar, os hábitos de costura e, como não poderia deixar de ser, a preparação para um casamento arranjado.
Nada disso atrai a atenção de Merida, que desde criança sempre se interessou muito mais por arcos e flechas a agulhas e linhas de costura. Seu pai, Fergus (voz do comediante Billy Connolly), é um rei bonachão que ficou famoso por sua luta com um terrível urso, que lhe custou a perna esquerda. Por ser da maneira que é, lutadora e emancipada, a relação de Merida com a mãe não é das melhores, e depois de um sério desentendimento, ela acaba encomendando a uma bruxa um feitiço que pode alterar o destino de todo o reino.
Falar mais estraga a surpresa, que não foi revelada nem mesmo nos trailers do filme. Não serei eu a me tornar o Mr. Spoiler (de novo).
Mas vale a pena tratar de como o filme é divertido, com um roteiro (e duração) enxuto - o filme tem apenas 1h20m. Apesar de lembrar - pelo simples uso do mesmo tipo de animal como centro da trama - em alguns momentos um outro filme famoso da Disney, o roteiro engana o espectador, ao parecer previsível no começo, mas com uma interessante e inesperada reviravolta na história. Merida é uma personagem interessante e envolvente, o que faz dela uma princesa digna dos maiores clássicos Disney, e ainda acrescenta um elemento atual: o da mulher independente e capaz de resolver as coisas por conta própria, coisa que não vemos nas princesas famosas do estúdio. Além disso, os personagens dos irmãos trigêmeos de Merida são um excelente alívio cômico.
Por tudo isso, Valente é um filme que faz jus ao legado quase impecável da Pixar.
Valente (2012) on IMDb