LiteraPop#2: A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan

, , No Comments
Romance vencedor do Pulitzer em 2011, A visita cruel do tempo (337 págs., Ed. Intrínseca, R$34,90) é um livro cativante. Os vários personagens descritos por Jennifer Egan se mostram sem artifícios decorativos desnecessários. São eles mesmos ali, tendo suas histórias narradas por diferentes vozes ao longo dos capítulos, sendo cada um de certa maneira independente do próximo, mas sempre tendo um elo entre si, formando todo o panorama da grande trama tecida pela autora.
Egan é uma escritora perspicaz, e toda sua inteligência e astúcia podem ser sentidas nas páginas de sua obra. Sua narrativa envolve o leitor de maneira hipnótica, e por vezes sufocante. A visita cruel do tempo entrelaça várias histórias em (quase) uma só: Sasha, assistente cleptomaníaca de Bennie Salazar, que é produtor musical de grande sucesso no passado; temos também a história de Jules Jones, um jornalista de celebridades que passou um tempo preso por atacar uma atriz em começo de estrelato. Estas são as histórias mais envolventes do romance, especialmente a de Sasha, que abre o livro brilhantemente e tem sua história revelada quase inteiramente durante toda a leitura.
Por vezes narradas na terceira, primeira e até segunda (uma proposta muito ousada) pessoa, as tramas de A visita cruel do tempo têm em comum entre si o tema da passagem do tempo, que vem sobre todos nós de maneira dura e cruel, como se fosse um valentão violento - o que remete ao título original, A visit from the goon squad (algo como "Uma visita do esquadrão de brutamontes"), uma analogia só compreensível na língua inglesa. Na obra de Jennifer Egan, os planos e sonhos do presente não se igualam em nada àqueles reservados a nós pelo tempo, frio e calculista.
Falando em tempo, o livro não se limita a um único período temporal em sua narrativa, abordando desde a década de 1970 até a futura década de 2020. Os capítulos passados no futuro próximo aproximam o livro de uma narrativa de ficção científica!
Inovador na forma - há um capítulo inteiro narrado em forma de slides de PowerPoint! - o romance é fluido e generoso com o leitor, sem subestimar sua inteligência, ao mesmo tempo em que prende a atenção até o fim. É também antenado com a cultura pop: fala de angústias modernas e traz elementos altamente pós-modernos, como a crise do mercado fonográfico, a comunicação virtual, a indiferença em relação ao outro e a ausência de razão para viver.
A visita cruel do tempo é triste, emocionante, poético, empolgante, sensível. É literatura em boa forma.

Em tempo: é possível ler o capítulo 12, "Grandes pausas do rock and roll, por Allison Blake", online, em forma de slides de PowerPoint, com áudio incluído, no site oficial de Jennifer Egan (em inglês), clicando AQUI.