O Palhaço - lirismo e melancolia em uma história de circo

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A carreira de Selton Mello se confunde com a própria trajetória do cinema brasileiro nos últimos 15 anos. Intérprete de alguns dos personagens mais memoráveis dos filmes nacionais, Selton alcançou status de principal ator brasileiro, posto que divide com Wagner Moura.
Não contente em ser reconhecido como um ator de talento indiscutível, ele resolveu pular para trás das câmeras e dirigir filmes. Começou com o drama pesado Feliz Natal, sobre a decadência de uma família e chegou ao seu segundo longa, a comédia dramática O Palhaço. Desta vez a trama é carregada de lirismo e poesia, com toques de Chaplin e Fellini. Não é coisa pouca.
Benjamin (Selton Mello) é o palhaço do título, filho de Valdemar (Paulo José), dono de um circo mambembe que circula por cidades minúsculas do interior e vive às custas de um público ainda ingênuo e escasso de diversão. O palhaço sofre de uma crise de identidade, sem saber ao certo qual é o seu propósito na vida; trata-se do clássico palhaço que alegra e diverte as pessoas, mas que não consegue alegrar a si mesmo. Em determinado (e pontual) momento, Benjamim se pergunta "Quem vai me fazer feliz?"
O Palhaço traz uma narrativa melancólica, não somente por causa do protagonista, mas por toda a ambientação do filme. O espectador compartilha dessa melancolia pela nostalgia impressa na película em cada fotograma: toda a realidade das cidades pequenas do interior, do circo chegando e chamando a atenção da população, a ingenuidade das pessoas, que acham graça de coisas bobas e puras.
Notável também é a ausência de localização no tempo da trama. Não se sabe se a história acontece nos anos 1970 ou na atualidade. Em determinado momento, o dinheiro que se vê é antigo, mas logo depois traços de modernidade podem ser observados, como na cena da participação de Danton Mello. Essa espécie de elipse temporal garante ao filme uma estranheza - na falta de palavra melhor - que, ao invés de distanciar, aproxima o espectador de um mundo de sonhos. Sonhos tristes, mas ainda sonhos.
As participações especiais são um espetáculo à parte: Fabiana Karla, Ferrugem, Moacir Franco (o melhor de todos), Tonico Pereira, Jorge Loredo. Todos atores do humor brasileiro, que subaproveitados em seus papeis na TV, ganham aqui uma profundidade e uma sutileza inesperada e muito bem-vinda.
O Palhaço é assim, um conto atemporal sobre os medos e frustrações por trás da maquiagem circense, e ao mesmo tempo uma leve história de um homem em busca de si mesmo. Simplesmente imperdível.

O Palhaço (2011) on IMDb