LiteraPop #1: A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin

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No mundo fictício de Westeros, dois clãs estão no centro de uma guerra pela sucessão do Trono de Ferro, na expectativa de decidirem quem governará sobre os Sete Reinos. São os Lannister ao sul e os Stark, ao norte. Este poderia ser um resumo breve de A guerra dos tronos (Editora Leya, R$39,90), mas há muito mais para se falar sobre o primeiro volume da série fantástica As crônicas de gelo e fogo, lançada em 1996 nos EUA, que já vendeu mais de 15 milhões de exemplares em todo o mundo e chegou ao Brasil em 2011, na esteira da estreia da adaptação para a TV feita pela HBO.
A leitura de A Guerra dos Tronos passa depressa, apesar das 567 páginas de história. O estilo de George R. R. Martin é fluído, mesmo sem utilizar termos fáceis e tramas rasas. É muito difícil criar uma trama rasa e fazê-la render em tantas páginas. Neste caso, a trama está longe de ser rasa. É densa, com inúmeros personagens (estima-se que haja mais de mil personagens nomeados até o volume quatro, O Festim dos Corvos) que ganham importância à medida que novos capítulos passam.
E por falar em capítulos, estes são fundamentais para a construção da história, que no final das contas acaba não tendo um protagonista ou um único clã pelo qual o leitor possa se colocar a favor. Isso porque cada capítulo é narrado em terceira pessoa, porém sob o ponto de vista de determinado personagem. Há capítulos em que o personagem central é Tyrion Lannister, membro de um dos clãs mais odiados pelos leitores, mas que por ser retratado de maneira tão próxima, acaba conquistando a simpatia e arrebanhando fãs. Ao conhecer os temores, pensamentos e reações de um personagem por capítulo, o leitor acaba se identificando com algum aspecto da personalidade, sendo quase improvável que o livro acabe sem que haja a identificação com pelo menos um personagem dentre as inúmeras opções.
Há que se destacar também o universo de Westeros, extremamente bem pensado e elaborado por Martin. Mesmo que não seja tão detalhista em suas descrições como acontece na obra de Tolkien, o autor de A Guerra dos Tronos é obcecado na ambientação, resultando em ricas construções de seus cenários, seja através das palavras ou por meio dos mapas localizados na primeira e na última página do volume. A todo momento o leitor vê-se levado a procurar nos mapas a localização de cada novo cenário inserido na trama, amplificando ainda mais a cumplicidade com o autor.
Embora seja um romance inserido no gênero fantástico, a obra de Martin bebe com vontade da fonte dos romances históricos. Prova disso é a imensa quantidade de sexo, violência bem descrita e toda sorte de características animalescas presentes na história da humanidade: incesto, estupros, prostituição, irmão matando irmão, laços familiares desfeitos, traições. Esse realismo anda de mãos dadas com todos os elementos clássicos da fantasia, como honra, tradição e atos cavalheirescos. Mas Martin não permite que tais elementos sejam colocados de forma simples diante do leitor. Os personagens podem agir de maneira sórdida em um capítulo e no próximo terem atitudes heroicas, e é essa ambiguidade que os torna tão cativantes, tão próximos de nós.
Assim é A Guerra dos Tronos. Uma obra rica em elementos fantásticos e realistas ao mesmo tempo, com múltiplos personagens importantes e inesquecíveis. Um livro merecedor de todos os elogios recebidos, capaz de tornar o leitor mais que um fã, um conhecedor de uma geografia e história totalmente novas, repletas de novos mistérios a serem desvendados a cada página, a cada parágrafo. Simplesmente brilhante.